—Estou muito contente, disse elle.
—Noticias do nosso povo? perguntou o boticario com a voz tremula.
O alienista fez um gesto magnifico, e respondeu:
—Trata-se de cousa mais alta, trata-se de uma experiencia scientifica. Digo experiencia, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha idéa; nem a sciencia é outra cousa, Sr. Soares, se não uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiencia, mas uma experiencia que vai mudar a face da terra. A loucura, objecto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticario. Depois explicou compridamente a sua idéa. No conceito delle a insania abrangia uma vasta superficie de cerebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocinios, de textos, de exemplos. Os exemplos achou-os na historia e em ltaguahy; mas, como um raro espirito que era, reconheceu o perigo de citar todos os casos de Itaguahy, e refugiou-se na historia. Assim, apontou com especialidade alguns personagens celebres, Socrates, que tinha um demonio familiar, Pascal, que via um abysmo á esquerda, Mahomet, Caracalla, Domiciano, Caligula, etc., uma enfiada de casos e pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridiculas. E porque o boticario se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma cousa, e até accrescentou sentenciosamcnte:
—A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a serio.
—Gracioso, muito gracioso! exclamou Crispim Soares lovantando as mãos ao céu.
Quanto á ideia de ampliar o territorio da loucura, achou-a o boticario extravagante; mas a modestia, principal adorno de seu espirito, não lhe sofreu confessar outra cousa além de um nobre enthusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acerescentou que era «caso de matraca.» Esta expressão não tem equivalente no estylo moderno. Naquelle tempo, Itaguahy, que como as demais villas, arraiaes e povoações da colonia, não dispunha de imprensa, tinha dous modos de divulgar uma noticia: ou por meio de cartazes manuscriptos e pregados na porta da camara e da matriz;—ou por meio de matraca. Eis em que consistia este segundo uso. Contractava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão. De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e elle annunciava o que lhe incumbiam,—um remedio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eeclesiastico, a melhor thesoura da villa, o mais bello discurso do anno, etc. O systema tinha inconvenientes para a paz publica; mas era conservado pela grande energia de divulgação que possuia. Por exemplo, um dos vereadores,—aquelle justamente que mais se oppuzera á creação da Casa Verde,—desfructava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticára um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os mezes. E dizem as chronicas que algumas pessoas affirmavam ter visto cascaveis dansando no peito do vereador; affirmação perfeitamente falsa, mas só devida á absoluta confiança no systema. Verdade, verdade; nem todas as instituições do antigo regimen, mereciam o desprezo do nosso seculo.
—Ha melhor do que annunciar a minha ideia, é pratical-a, respondeu o alienista á insinuação do boticario.
E o boticario, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que era melhor começar pela execução.