Deteve-os um incidente: era um corpo de dragões que, a marche-marche, entrava na rua Nova.
[VII]
O INESPERADO
Chegados os dragões em frente aos Cangicas, houve um instante de estupefacção; os Cangicas não queriam crer que a força publica fosse mandada contra elles; mas o barbeiro comprehendeu tudo e esperou. Os dragões pararam, o capitão intimou á multidão que se dispersasse; mas, comquanto uma parte della estivesse inclinada a isso, a outra parte apoiou fortemente o barbeiro, cuja resposta consistiu nestes termos alevantados:
—Não nos dispersaremos. Se quereis os nossos cadaveres, podeis tomal-os; mas só os cadaveres; não levareis a nossa honra, o nosso credito, os nossos direitos, e com elles a salvação da Itaguahy.
Nada mais imprudente do que essa resposta do barbeiro; e nada mais natural. Era a vertigem das grandes crises. Talvez fosse tambem um excesso de confiança na abstenção das armas por parte dos dragões; confiança que o capitão dissipou logo, mandando carregar sobre os Cangicas. O momento foi indescriptivel. A multidão urrou furiosa; alguns, trepando ás janellas das casas, ou correndo pela rua fóra, conseguiram escapar; mas a maioria ficou, bufando de colera, indignada, animada pela exhortação do barbeiro. A derrota dos Cangicas estava imininente, quando um terço dos dragões,—qualquer que fosse o motivo, as chronicas não o declaram,—passou subitamente para o lado da rebellião. Este inesperado reforço deu alma aos Cangicas, ao mesmo tempo que lançou o desanimo ás fileiras da legalidade. Os soldados fieis não tiveram coragem de atacar os seus proprios camaradas, e, um a um, foram passando para elles, de modo que ao cabo de alguns minutos, o aspecto das cousas era totalmente outro. O capitão estava de um lado, com alguma gente, contra uma massa compacta que o ameaçava de morte. Não teve remedio, declarou-se vencido e entregou a espada ao barbeiro.
A revolução triumphante não perdeu um só minuto; recolheu os feridos ás casas proximas, e guiou para a camara. Povo e tropa fraternisavam, davam vivas a el-rei, ao vice-rei, a Itaguahy, ao «illustre Porfirio.» Este ia na frento, empunhando tão destramente a espada, como se ella fosse apenas uma navalha um pouco mais comprida. A victoria cingia-lhe a fronte de um nimbo mysterioso. A dignidade de governo começava a enrijar-lhe os quadris.
Os vereadores, ás janellas, vendo a multidão e a tropa, cuidaram que a tropa capturára a multidão, e sem mais exame, entraram e votaram uma petição ao vice-rei para que mandasse dar um mez de soldo aos dragões, «cujo denodo salvou Itaguahy do abysmo a que o tinha lançado uma cáfila de rebeldes.» Esta phrase foi proposta por Sebastião Freitas, o vereador dissidente, cuja defeza dos Cangicas tanto escandalisára os collegas. Mas bem depressa a illusão se desfez. Os vivas ao barbeiro, os morras aos vereadores e ao alienista vieram dar-lhes noticia da triste realidade. O presidente não desanimou:—Qualquer que seja a nossa sorte, disse elle, lembremo-nos que estamos ao serviço de Sua Magestade e do povo.—Sebastião Freitas insinuou que melhor se poderia servir á corôa e á villa sahindo pelos fundos e indo conferenciar com o juiz de fóra, mas toda a camara rejeitou esse alvitre.
D'ahi a nada o barbeiro, acompanhado de alguns de seus tenentes, entrava na sala da vereança, e intimava á camara a sua queda. A camara não resistiu, entregou-se, e foi dalli para a cadeia. Então os amigos do barbeiro propozeram-lhe que assumisse o governo da villa, em nome de Sua Magestade. Porfirio aceitou o encargo, embora não desconhecesse (accrescentou) os espinhos que trazia; disse mais que não podia dispensar o concurso dos amigos presentes; ao que elles promptamente annuiram. O barbeiro veiu á janella, e communicou ao povo essas resoluções, quo o povo ratificou, acclamando o barbeiro. Este tomou a denominação de—«Protector da villa em nome de Sua Magestade e do povo.»—Expediram-se logo varias ordens importantes, communicações officiaes do novo governo, uma exposição minuciosa ao vice-rei, com muitos protestos de obediencia ás ordens de Sua Magestade; finalmente, uma proclamação ao povo, curta, mas energica:
«Itaguahyenses!