O alienista mal podia dissimular o assombro; confessou que esperava outra cousa, o arrazamento do hospicio, a prisão delle, o desterro, tudo, menos...
—O pasmo de Vossa Senhoria, atalhou gravemente o barbeiro, vem de não attender á grave responsabilidade do governo. O povo, tomado de uma céga piedade, que lhe dá em tal caso legitima indignação, póde exigir do governo certa ordem de actos; mas este, com a responsabilidade que lhe incumbe, não os deve praticar, ao menos integralmente, e tal é a nossa situação. A generosa revolução que hontem derrubou uma camara villipendiada e corrupta, pediu em altos brados o arrazamento da Casa Verde; mas pode entrar no animo do governo eliminar a loucura? Não. E se o governo não a pode eliminar, está ao menos apto para discriminal-a, reconhecel-a? Tambem não; é materia de sciencia. Logo, em assumpto tão melindroso, o governo não póde, não deve, não quer dispensar o concurso de Vossa Senhoria. O que lhe pede é que de certa maneira demos alguma satisfação ao povo. Unamo-nos, e o povo saberá obedecer. Um dos alvitres aceitaveis, se Vossa Senhoria não indicar outro, seria fazer retinir da Casa Verde aquelles enfermos que estiverem quasi curados, e bem assim os maniacos de pouca monta, etc. Desse modo, sem grande perigo, mostraremos alguma tolerancia e benignidade.
—Quantos mortos e feridos houve hontem no conflicto? perguntou Simão Bacamarte, depois de uns tres minutos.
O barbeiro ficou espantado da pergunta, mas respondeu logo que onze mortos e vinte e cinco feridos.
—Onze mortos e vinte e cinco feridos! repetiu duas ou trez vezes o alienista.
E em seguida declarou que o alvitre lhe não parecia bom, mas que elle ia catar algum outro, e dentro de poucos dias lhe daria resposta. E fez-lhe varias perguntas ácerca dos successos da vespera, ataque, defeza, adhesão dos dragões, resistencia da camara, etc., ao que o barbeiro ia respondendo com grande abundancia, insistindo principalmente no descredito em que a camara cahira. O barbeiro confessou que o novo governo não tinha ainda por si a confiança dos principaes da villa, mas o alienista podia fazer muito nesse ponto. O govemo, concluiu o barbeiro, folgaria se pudesse contar, não já com a sympathia, senão com a benevolencia do mais alto espirito de Itaguahy, e seguramente do reino. Mas nada disso alterava a nobre e austera physionomia daquelle grande homem, que ouvia calado, sem desvanecimento, nem modestia, mas impassivel como um deus de pedra.
—Onze mortos e vinte e cinco feridos, repetiu o alienista, depois de acompanhar o barbeiro ate á porta. Eis ahi dous lindos casos de doença cerebral. Os symptomas de duplicidade e descaramento deste barbeiro são positivos. Quanto á toleima dos que o acclamaram não é preciso outra prova além dos onze mortos e vinte e cinco feridos.—Dous lindos casos!
—Viva o illustre Porfirio! bradaram umas trinta pessoas que aguardavam o barbeiro á porta.
O alienista espiou pela janella, e ainda ouviu este resto de uma pequena falla do barbeiro ás trinta pessoas que o acclamavam.
—... porque eu vélo, podeis estar certos disso, eu vélo pela execução das vontades do povo. Confiai em mim; e tudo se fará pela melhor maneira. Só vos recommendo ordem. A ordem, meus amigos, é a base do governo...