—É impossivel; alguns, sim, mas todos...

—Todos. Assim o disse elle no officio que mandou hoje de manhã á camara.

De facto, o alienista officiára á camara expondo:—1°, que verificára das estatisticas da villa e da Casa Verde, que quatro quintos da população estavam aposentados naquelle estabelecimento; 2°, que esta deslocação de população levára-o a examinar os fundamentos da sua theoria das molestias cerebraes, theoria que excluia do dominio da razão todos os casos em que o equilibrio das faculdades, não fosse perfeito e absoluto; 3°, que desse exame e do facto estatistico resultára para elle a convicção de que a verdadeira doutrina não era aquella, mas a opposta, e portanto que se devia admittir como normal e exemplar o desequilibrio das faculdades, e como hypotheses pathologicas todos os casos em que aquelle equilibrio fosse ininterrupto; 4°, que á vista disso, declarava á camara que ia dar liberdade aos reclusos da Casa Verde e agazalhar nella as pessoas que se achassem nas condições agora expostas; 5°, que tratando de descobrir a verdade scientifica, não se pouparia a esforços de toda a natureza, esperando da camara egual dedicação; 6°, que restituia á camara e aos particulares a somma do estipendio recebido para alojamento dos suppostos loucos, descontada a parte effectivamente gasta com a alimentação, roupa, etc.; o que a camara mandaria verificar nos livros e arcas da Casa Verde.

O assombro de Itaguahy for grande; não foi menor a alegria dos parentes e amigos dos reclusos. Jantares, dansas, luminarias, musicas, tudo houve para celebrar tão fausto acontecimento. Não descrevo as festas por não interessarem ao nosso proposito; mas foram esplendidas, tocantes e prolongadas.

E vão assim as cousas humanas! No meio do regosijo produzido pelo officio de Simão Bacamarte, ninguem advertia na phrase final do § 4°, uma phrase cheia de experiencias futuras.

[XII]
O FINAL DO § 4°

Apagaram-se as luminarias, reconstituiram-se as familias, tudo parecia reposto uos antigos eixos. Reinava a ordem, a camara exercia outra vez o governo, sem nenhuma pressão externa; o proprio presidente e o vereador Freitas tornaram aos seus logares. O barbeiro Porfirio, ensinado pelos acontecimentos, tendo «provado tudo,» como o poeta disse de Napoleão, e mais alguma cousa, porque Napoleão não provou a Casa Verde, o barbeiro achou preferivel a gloria obscura da navalha e da tesoura ás calamidades brilhantes do poder; foi, é certo, processado; mas a população da villa implorou a clemencia de Sua Magestade; dahi o perdão. João Pina foi absolvido, attendendo-se a que elle derrocára um rebelde. Os chronistas pensam que deste facto é que nasceu o nosso adagio:—ladrão que furta a ladrão, tem cem annos de perdão;—adagio immoral, é verdade, mas grandemente util.

Não só findaram as queixas contra o alienista, mas até nenhum resentimento ficou dos actos que elle praticára; accrescendo que os reclusos da Casa Verde, desde que elle os declarara plenamente ajuizados, sentiram-se tomados de profundo reconhecimento e férvido enthusiasmo. Muitos entenderam que o alienista merecia uma especial manifestação, e deram-lhe um baile, ao qual se seguiram outros bailes e jantares. Dizem as chronicas que D. Evarista a principio tivera ideia de separar-se do consorte, mas a dôr de perder a companhia de tão grande homem venceu qualquer resentimento de amor-proprio, e o casal veiu a ser ainda mais feliz do que antes.

Não menos intima ficou a amizade do alienista e do boticario. Este concluiu do officio de Simão Bacamarte que a prudencia e a primeira das virtudes em tempos de revolução, e apreciou muito a magnanimidade do alienista que, ao dar-lhe a liberdade, ostendeu-lhe a mão de amigo velho.