—Se for ao parlamento, posso occupar a tribuna?

—Podes e deves; é um modo de convocar a attenção publica. Quanto á materia dos discursos, tens á escolha:—ou os negocios miudos, ou a metaphysica politica, mas prefere a metaphysica. Os negocios miudos, força é confessal-o, não desdizem d'aquella chateza de bom tom, propria de um medalhão acabado; mas, se poderes, adopta a metaphysica;—é mais facil e mais attrahente. Suppõe que desejas saber porque motivo a 7a companhia de infantaria foi transferida de Uruguayana para Cangussú; serás ouvido tão sómente pelo ministro da guerra, que te explicará em dez minutos as razões d'esse acto. Não assim a metaphysica. Um discurso de metaphysica politica apaixona naturalmente os partidos e o publico, chama os apartes e as respostas. E depois não obriga a pensar e descobrir. N'esse ramo dos conhecimentos humanos tudo está achado, formulado, rotulado, encaixotado; é só prover os alforges da memoria. Em todo caso, não transcedas nunca os limites de uma invejavel vulgaridade.

—Farei o que puder. Nenhuma imaginação?

—Nenhuma; antes faze correr o boato de que um tal dom é infimo.

—Nenhuma philosophia?

—Entendamo-nos: no papel e na lingua alguma, na realidade nada. «Philosophia da historia,» por exemplo, é uma locução que deves empregar com frequencia, mas prohibo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.

—Também ao riso?

—Como ao riso?

—Ficar serio, muito serio...

—Conforme. Tens um um genio folgasão, prasenteiro, não has de sofreal-o nem eliminal-o; pódes brincar e rir alguma vez. Medalhão não quer dizer melancolico. Um grave póde ter seus momentos de expansão alegre. Sómente,—e este ponto é melindroso...