Saiu o homem magro, e voltou logo depois. Assomando á porta, levantou o reposteiro e deu entrada a uma mulher, que caminhou para o centro da sala. Não era mulher, era uma sylphide, uma visão de poeta, uma creatura divina. Era loura; tinha os olhos azues, como os de Cecilia, extaticos, uns olhos que buscavam o céu ou pareciam viver delle. Os cabellos, deleixadamente penteados, faziam-lhe em volta da cabeça, um como resplendor de santa; santa sómente, não martyr, porque o sorriso que lhe desabrochava os labios, era um sorriso de bem-aventurança, como raras vezes hade ter tido a terra. Um vestido branco, de finissima cambraia, envolvia-lhe castamente o corpo, cujas fórmas aliás desenhava, pouco para os olhos, mais muito para a imaginação.
Um rapaz, como o bacharel, não perde o sentimento da elegancia, ainda em lances daquelles. Duarte, ao ver a moça, compoz o chambre, apalpou a gravata e fez uma ceremoniosa cortezia, a que ella correspondeu com tamanha gentileza e graça, que a aventura começou a parecer muito menos atterradora.
—Meu caro doutor, esta é a noiva.
A moça abaixou os olhos; Duarte respondeu que não tinha vontade de casar.
—Tres cousas vae o senhor fazer agora mesmo, continuou impassivelmente o velho: a primeira, é casar; a segunda, escrever o seu testamento; a terceira engolir certa droga do Levante...
—Veneno! interrompeu Duarte.
—Vulgarmente é esse o nome; eu dou-lhe outro: passaporte do céu.
Duarte estava pallido e frio. Quiz fallar, não pôde; um gemido, sequer, não lhe saiu do peito. Rolaria ao chão, se não houvesse alli perto uma cadeira em que se deixou cair.
—O senhor, continuou o velho, tem uma fortunasinha de cento e cincoenta contos. Esta perola será a sua herdeira universal. João Rufino, vá buscar o padre.
O padre entrou, o mesmo padre calvo que abençoara o bacharel pouco antes; entrou e foi direito ao moço, ingrolando somnolentamente um trecho de Nehemias ou qualquer outro proplieta menor; travou-lhe da mão e disse: