Upa! Conheço-o ha muito mais tempo, desde que elle estreou na rua do Ouvidor, em pleno marquez de Paraná. Era um endiabrado, um derramado, planeava todas as cousas possiveis, e até contrarias, um livro, um discurso, um medicamento, um jornal, um poema, um romance, uma historia, um libello politico, uma viagem á Europa, outra ao sertão de Minas, outra á lua, em certo balão que inventara, uma candidatura politica, e archeologia, e philosophia, e theatro, etc., etc., etc. Era um sacco de espantos[1]. Quem conversava com elle sentia vertigens. Imagine uma cachoeira de idéas e imagens, qual mais original, qual mais bella, ás vezes extravagante, ás vezes sublime. Note que elle tinha a convicção dos seus mesmos inventos. Um dia, por exemplo, acordou com o plano de arrazar o morro do Castello, a troco das riquezas que os jesuitas alli deixaram, segundo o povo crê. Calculou-as logo em mil contos, inventariou-as com muito cuidado, separou o que era moeda, mil contos, do que eram obras de arte e pedrarias; descreveu minuciosamente os objectos, deu-me dous tocheiros de ouro.
Z
Realmente...
A
Ah! impagavel. Quer saber de outra? Tinha lido as cartas do conego Benigno, e resolveu ir logo ao sertão da Bahia, procurar a cidade mysteriosa. Expoz-me o plano, descreveu-me a architectura provavel da cidade, os templos, os palacios, genero etrusco, os ritos, os vasos, as roupas, os costumes...
Z
Era então doudo?
A
Originalão apenas. Odeio os carneiros de Panurgio, dizia elle, citando Rabelais: Comme vous sçaves estre du mouton le naturel, tousjours suivre le premier, quelque part qu'il aille. Comparava a trivialidade a uma mesa redonda de hospedaria, e jurava que antes comer um máu bife em mesa separada.
Z