D. Evarista sentiu faltar-lhe o chão debaixo dos pés. Nunca dos nuncas vira o Rio de Janeiro, que posto não fosse sequer uma pallida sombra do que hoje é, todavia era alguma cousa mais do que Itaguahy. Ver o Rio de Janeiro, para ella, equivalia ao sonho do hebreu captivo. Agora, principalmente, que o marido assentára de vez naquella povoação interior, agora é que ella perdera as ultimas esperanças de respirar os ares da nossa boa cidade; e justamente agora é que elle a convidava a realisar os seus desejos de menina e moça. D. Evarista não pôde dissimular o gosto de semelhante proposta. Simão Bacamarte pegou-lhe na mão e sorriu,—um sorriso tanto ou quanto philosophico, além de conjugal, em que parecia traduzir-se este pensamento:—«Não ha remedio certo para as dôres da alma; esta senhora definha, porque lhe parece que a não amo; dou-lhe o Rio de Janeiro, e consola-se.» E porque era homem estudioso tomou nota da observação.

Mas um dardo atravessou o coração de D. Evarista. Conteve-se, entretanto; limitou-se a dizer ao marido, que, se elle não ia, ella não iria tambem, porque não havia de metter-se sózinha pelas estradas.

—Irá com sua tia, redarguiu o alienista.

Note-se que D. Evarista tinha pensado nisso mesmo; mas não quizera pedil-o nem insinual-o, em primeiro logar porque seria impôr grandes despezas ao marido, em segundo logar porque era melhor, mais methodico e racional que a proposta viesse delle.

—Oh! mas o dinheiro que será preciso gastar! suspirou D. Evarista sem convicção.

—Que importa? Temos ganho muito, disse o marido. Ainda hontem o escripturario prestou-me contas. Queres ver?

E levou-a aos livros. D. Evarista ficou deslumbrada. Era uma via-lactea de algarismos. E depois levou-a ás arcas, onde estava o dinheiro. Deus! eram montes de ouro, eram mil cruzados sobre mil cruzados, dobrões sobre dobrões; era a opulencia. Emquanto ella comia o ouro com os seus olhos negros, o alienista fitava-a, e dizia-lhe ao ouvido com a mais perfida das allusões.

—Quem diria que meia duzia de lunaticos...

D. Evarista comprehendeu, sorriu e respondeu com muita resignação:

—Deus sabe o que faz!