—Estivemos juntos uma noite, ha alguns mezes, na Tijuca... Não se lembra? Em casa do Theodorico, aquella grande ceia de Natal; por signal que lhe fiz uma saude... Veja se se lembra do Custodio.
—Ah!
Custodio endireitou o busto, que até então inclinara um pouco. Era um homem de quarenta annos. Vestia pobremente, mas escorado, apertado, correcto. Usara unhas longas, curadas com esmero, e tinha as mãos muito bem talhadas, macias, ao contrario da pelle do rosto, que era agreste. Noticias minimas, e aliás necessarias ao complemento de um certo ar duplo que distinguia este homem, um ar de pedinte e general. Na rua, andando, sem almoço e sem vintem, parecia levar após si um exercito. A causa não era outra mais do que o contraste entre a natureza e a situação, entre a alma e a vida. Esse Custodio nascera com a vocação da riqueza, sem a vocação do trabalho. Tinha o instincto das elegancias, o amor do superfluo, da boa chira, das bellas damas, dos tapetes finos, dos moveis raros, um voluptuoso, e, até certo ponto, um artista, capaz de reger a villa Torloni ou a galeria Hamilton. Mas não tinha dinheiro; nem dinheiro, nem aptidão ou pachorra de o ganhar; por outro lado, precisara viver. Il faut bien que je vive, dizia um pretendente ao ministro Talleyrand. Je n'en vois pas la necessité, redarguiu friamente o ministro. Ninguem dava essa resposta ao Custodio; davam-lhe dinheiro, um dez, outro cinco, outro vinte mil reis, e de taes esportulas é que elle principalmente tirava o albergue e a comida.
Digo que principalmente vivia d'ellas, porque o Custodio não recusava metter-se em alguns negocios, com a condição de os escolher, e escolhia sempre os que não prestavam para nada. Tinha o faro das catastrophes. Entre vinte emprezas, adivinhava logo a insensata, e mettia hombros a ella, com resolução. O caiporismo, que o perseguia, fazia com que as dezenove prosperassem, e a vigesima lhe estourasse nas mãos. Não importa; apparelhava-se para outra.
Agora, por exemplo, leu um annuncio de alguem que pedia um socio, com cinco contos de reis, para entrar em certo negocio, que promettia dar, nos primeiros seis mezes, oitenta a cem contos de lucro, Custodio foi ter com o annunciante. Era uma grande idéa, uma fabrica de agulhas, industria nova, de immenso futuro. E os planos, os desenhos da fabrica os relatorios de Birmingham, os mappas de importação, as respostas dos alfaiates, dos donos de armarinho, etc., todos os documentos de um longo inquerito passavam diante dos olhos de Custodio, estrellados de algarismos, que elle não entendia, e que por isso mesmo lhe pareciam dogmaticos. Vinte e quatro horas; não pedia mais de vinte e quatro horas para trazer os cinco contos. E saiu d'alli, cortejado, amimado pelo annunciante, que, ainda á porta, o afogou n'uma torrente de saldos. Mas os cinco contos, menos doceis ou menos vagabundos que os cinco mil reis, saccudiam incredulamente a cabeça, e deixavam-se estar nas arcas, tolhidos de medo e de somno. Nada. Oito ou dez amigos, a quem fallou, disseram-lhe que nem dispunham agora da somma pedida, nem acreditavam na fabrica. Tinha perdido as esperanças, quando aconteceu subir a rua do Rozario e ler no portal de um cartorio o nome de Vaz Nunes. Estremeceu de alegria; recordou a Tijuca, as maneiras do tabellião, as phrases com que elle lhe respondeu ao brinde, e disse comsigo, que este era o salvador da situação.
—Venho pedir-lhe uma escriptura...
Vaz Nunes, armado para outro começo, não respondeu: espiou por cima dos oculos e esperou.
—Uma escriptura de gratidão, explicou o Custodio; venho pedir-lhe um grande favor, um favor indispensavel, e conto que o meu amigo...
—Se estiver nas minhas mãos...
—O negocio é excellente, note-se bem; um negocio magnifico. Nem eu me mettia a incommodar os outros sem certeza do resultado. A cousa está prompta; foram já encommendas para a Inglaterra; e é provavel que dentro de dois mezes esteja tudo montado, é uma industria nova. Somos tres socios; a minha parte são cinco contos. Venho pedir-lhe esta quantia, a seis mezes,—ou a tres, com juro modico...