—Duas?

—Nada menos de duas almas. Cada creatura humana traz duas almas comsigo: uma que olha de dentro para fóra, outra que olha de fóra para dentro... Espantem-se á vontade; pódem ficar de bocca aberta, dar de hombros, tudo; não admitto replica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior póde ser um espirito, um fluido, um homem, muitos homens, um objecto, uma operação. Ha casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa;—e assim tambem a polka, o voltarete, um livro, uma machina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o officio dessa segunda alma é transmittir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metaphysicamente fallando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existencia; e casos ha, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existencia inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior daquelle judeu eram os seus ducados; perdel-os equivalia a morrer, «Nunca mais verei o meu ouro, diz elle a Tubal; é um punhal que me enterras no coração». Vejam bem esta phrase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para elle. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...

—Não?

—Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não alludo a certas almas absorventes, como a patria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de Cesar e de Cromwell. São almas energicas e exclusivas; mas ha outras, embora energicas, de natureza mudavel. Ha cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros annos, foi um chocalho ou um cavallinho de páu, e mais tarde uma provedoria de irmandade, supponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora,—na verdade, gentilissima,—que muda de alma exterior cinco, seis vezes por anno. Durante a estação lyrica é a opera; cessando a estação, a alma exterior substitue-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petropolis...

—Perdão; essa senhora quem é?

—Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome: chama-se Legião... E assim outros muitos casos. Eu mesmo tenho experimentado d'essas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episodio de que lhes fallei. Um episodio dos meus vinte e cinco annos...

Os quatro companheiros, anciosos de ouvir o caso promettido, esqueceram a controversia. Santa curiosidade! tu não és só a ama da civilisação, és tambem o pomo da concordia, fructa divina, de outro sabor que não aquelle pomo da mythologia. A sala, até ha pouco ruidosa de physica e metaphysica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que concerta a ponta do charuto, recolhendo as memorias. Eis aqui como elle começou a narração:

—Tinha vinte e cinco annos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da guarda nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na villa, note-se bem, houve alguns despeitados; chôro e ranger de dentes, como na Escriptura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que estes perderam. Supponho tambem que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distincção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam commigo, e passaram a olhar-me de revez, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viuva do capitão Peçanha, que morava a muitas leguas da villa, n'um sitio escuso e solitario, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ella e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pagem, que d'ahi á dias tornou á villa, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sitio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mez, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me tambem o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a provincia não havia outro que me puzesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãosinho, como d'antes; e ella abanava a cabeça, bradando que não, que era o «senhor alferes». Um cunhado d'ella, irmão do finado Peçanha, que alli morava, não me chamava de outra maneira. Era o «senhor alferes», não por gracejo, mas a serio, e á vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor logar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o enthusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnifica, que destoava do resto da casa, cuja mobilia era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdára da mãe, que o comprára a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia n'isso de verdade; era a tradicção. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos angulos superiores da moldura, uns enfeites de madreperola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...

—Espelho, grande?

—Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do proposito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o «senhor alferes» merecia muito mais. O certo é que todas essas cousas, carinhos, attenções, obsequios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?