—Mas não comia?
—Comia mal, fructas, farinha, conservas, algumas raizes tostadas ao fogo, mas supportaria tudo alegremente, se não fora a terrivel situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, lyras de Gonzaga, oitavas de Camões, decimas, uma anthologia em trinta volumes. Ás vezes fazia gymnastica; outras dava beliscões nas pernas; mas o effeito era só uma sensação physica de dôr ou de cançaço, e mais nada. Tudo silencio, um silencio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pendula. Tic-tac, tic-tac...
—Na verdade, era de enlouquecer.
—Vão ouvir cousa peior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhára uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, n'aquella casa solitaria; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradicção humana, porque no fim de oito dias, deu-me na veneta olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O proprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nitida e inteira, mas vaga, esfumada, diffusa, sombra de sombra. A realidade das leis physicas não permitte negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; attribui o phenomeno á excitação nervosa em que andava; receiei ficar mais tempo, e enlouquecer.—Vou-me embora, disse commigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando commigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrepito, affligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma cousa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma diffusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicavel, por um impulso sem calculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéa...
—Diga.
—Estava a olhar para o vidro, com uma persistencia de desesperado, contemplando as proprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar.
—Mas, diga, diga.
—Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, apromptei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, emfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sitio, dispersa e fugida com os escravos, eil-a recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco emerge de um lethargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objectos, mas não conhece individualmente uns nem outros; emfim, sabe que este é Fulano, aquelle é Sicrano; aqui está uma cadeira, alli um sofá. Tudo volta ao que era antes do somno. Assim foi commigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria, e o vidro exprimia tudo. Não era mais um automato, era um ente animado. D'ahi em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo, olhando, meditando; no fim de duas, tres horas, despia-me outra vez. Com este regimen pude atravessar mais seis dias de solidão, sem os sentir...
Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.
FIM DO ESPELHO