Eras pallida. E os cabellos,
Aereos, soltos novellos,
Sobre as espaduas as cahiam...
Os olhos meio-cerrados
De volupia e de ternura
Entre lagrimas luziam...
E os braços entrelaçados,
Como cingindo a ventura,
Ao teu seio me cingiam...
Depois, naquelle delirio,
Suave, doce martyrio
De pouquissimos instantes,
Os teus labios sequiosos,
Frios, tremulos, trocavam
Os beijos mais delirantes,
E no supremo dos gozos
Ante os anjos se casavam
Nossas almas palpitantes...
Depois... depois a verdade,
A fria realidade,
A solidão, a tristeza;
Daquelle sonho desperto,
Olhei... silencio de morte
Respirava a natureza—
Era a terra, era o deserto,
Fôra-se o doce transporte,
Restava a fria certeza.
Desfizera-se a mentira:
Tudo aos meus olhos fugira:
Tu e o teu olhar ardente,
Labios tremulos e frios,
O abraço longo e apertado,
O beijo doce e vehemente;
Restavam meus desvarios,
E o incessante cuidado,
E a phantasia doente.
E agora te vejo. E fria
Tão outra estás da que eu via
Naquelle sonho encantado!
És outra, calma, discreta,
Com o olhar indifferente,
Tão outro do olhar sonhado,
Que a minha alma de poeta
Não vê se a imagem presente
Foi a visão do passado.
Foi, sim, mas visão apenas;
Daquellas visões amenas
Que á mente dos infelizes
Descem vivas e animadas,
Cheias de luz e esperança
E de celestes matizes;
Mas, apenas dissipadas,
Fica uma leve lembrança,
Não ficam outras raizes.
Inda assim, embora sonho,
Mas, sonho doce e risonho,
Désse-me Deus que fingida
Tivesse aquella ventura
Noite por noite, hora a hora,
No que me resta de vida,
Que, já livre da amargura,
Alma, que em dores me chora.
Chorára de agradecida!


[QUINZE ANNOS]

Oh! la fleur de l'Eden, pourquoi l'as-tu fanée,
Insouciant enfant, belle Eve bus blonds cheveux?

ALFRED DE MUSSET

Era uma pobre criança...
—Pobre criança, se o eras!—
Entre as quinze primaveras
De sua vida cançada
Nem uma flôr de esperança
Abria a medo. Eram rosas
Que a douda da esperdiçada
Tão festivas, tão formosas,
Desfolhava pelo chão.
—Pobre criança, se o eras!—
Os carinhos mal gozados
Eram por todos comprados,
Que os affectos de sua alma
Havia-os levado á feira,
Onde vendera sem pena
Até a illusão primeira
Do seu doudo coração!
Pouco antes, a candura,
Co'as brancas azas abertas,
Em um berço de ventura
A criança acalentava
Na santa paz do Senhor;
Para accordal-a era cedo,
E a pobre ainda dormia
Naquelle mudo segredo
Que só abre o seio um dia
Para dar entrada a amor.
Mas, por teu mal, acordaste!
Junto do berço passou-te
A festiva melodia
Da seducção... e acordou-te!
Colhendo as limpidas azas,
O anjo que te velava
Nas mãos tremulas e frias
Fechou o rosto... chorava!
Tu, na sede dos amores,
Colheste todas as flôres
Que nas orlas do caminho
Foste encontrando ao passar;
Por ellas, um só espinho
Não te feriu... vás andando...
Corre, criança, até quando
Fores forçada a parar!
Então, desflorada a alma
De tanta illusão, perdida
Aquella primeira calma
Do teu somno de pureza;
Esfolhadas, uma a uma,
Essas rosas de belleza
Que se esvaem como a escuma
Que a vaga cospe na praia
E que por si se desfaz;
Então, quando nos teus olhos
Uma lagrima buscares,
E seccos, seccos de febre,
Uma só não encontrares
Das que em meio das angustias
São um consolo e uma paz;
Então, quando o frio spectro
Do abandono e da penuria
Vier aos teus soffrimentos
Juntar a ultima injuria:
E que não vires ao lado
Um rosto, um olhar amigo
Daquelles que são agora
Os desvellados comtigo;
Criança, verás o engano
E o erro dos sonhos teus;
E dirás,—então já tarde,—
Que por taes gozos não vale
Deixar os braços de Deus.


[STELLA]

Já raro e mais escasso
A noite arrasta o manto,
E verte o ultimo pranto
Por todo o vasto espaço.
Tibio clarão já córa
A téla do horizonte,
E já de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora.
Á muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manhã.
Uma por uma, vão
As pallidas estrellas,
E vão, e vão com ellas
Teus sonhos, coração.
Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o humido seio?
Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a nevoa fria,
Virá do roxo oriente.
Dos intimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera,
Em lagrimas a pares,
Do amor silencioso,
Mystico, doce, puro,
Dos sonhos de futuro,
Da paz, do ethereo gozo,
De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma está deserta.
A virgem da manhã
Já todo o céu domina....
Espero-te, divina,
Espero-te, amanhã.