N'essa hora de amor e de tristeza,
Se acaso não amaste e acaso esperas
Ver coroar-te a juvenil belleza
Casto sonho das tuas primaveras;
Não sentes escapar tua alma acesa
Para voar ás lucidas espheras?
Não sentes n'essa mágoa e n'esse enleio
Vir morrer-te uma lagrima no seio?

III

Sêntel-o? Então entenderás Elvira,
Que assentada á janella, erguendo o rosto,
O vôo solta á alma que delira
E mergulha no azul de um céu de agosto;
Entenderás então porque suspira,
Victima já de um intimo desgosto,
A meiga virgem, pallida e calada,
Sonhadora, anciosa e namorada.

IV

Mansão de riso e paz, mansão de amores
Era o valle. Espalhava a natureza,
Com dadivosa mão, palmas e flôres
De agreste aroma e virginal belleza;
Bosques sombrios de immortaes verdores,
Asylo proprio á inspiração accesa,
Valle de amor, aberto ás almas ternas
N'este valle de lagrimas eternas.

V

A casa, junto á encosta de um outeiro,
Alva pomba entre folhas parecia:
Quando vinha a manhã, o olhar primeiro
Ia beijar-lhe a verde gelosia:
Mais tarde a fresca sombra de um coqueiro
Do sol quente a janella protegia;
Pouco distante, abrindo o solo adusto,
Um fio d'agua murmurava a custo.

VI

Era uma joia a alcova em que sonhava
Elvira, alma de amor. Tapete fino
De apurado lavor o chão forrava.
De um lado oval espelho crystallino
Pendia. Ao fundo, á sombra, se occultava
Elegante, engraçado, pequenino
Leito em que, repousando a face bella,
De amor sonhava a pallida donzella.

VII