—O chinez! exclamou a creada.

De feito, era um mandarim de porcellana, pobre diabo que estava muito quieto, em cima de uma estante. Sophia achou-se com elle entre os dedos, sem saber como, nem desde quando; ao cuidar na sua voluntaria humilhação, teve um impulso—parece que raiva de si mesma,—e deu com o boneco em terra. Pobre mandarim! não lhe valeu ser de porcellana; não lhe valeu siquer ser dado pelo Palha.

—Mas, minha ama, como é que o chinez...

—Vá-se embora!

Sophia recordou todo o seu proceder diante de Carlos Maria, as acquiescencias faceis, os perdões antecipados, os olhos com que o buscava, os apertos de mão tão fortes... Era isso; tinha-se-lhe lançado aos pés. Depois, o sentimento foi mudando. Apezar de tudo, era natural que elle gostasse d'ella, e a conformidade moral de ambos não traria o abandono de um. Talvez a culpa fosse outra. Excavou razões possiveis, algum gesto duro e frio, alguma falta de attenção para com elle; lembrou-se que, uma vez, por medo de o receber sosinha, mandou dizer que não estava em casa. Sim, podia ser isso. Carlos Maria era orgulhoso; a menor desfeita pungia-o. Soube que era mentira... Essa era a culpa.


[CAPITULO CVI]

...ou, mais propriamente, capitulo em que o leitor, desorientado, não póde combinar as tristezas de Sophia com a anecdota do cocheiro. E pergunta confuso:—Então a entrevista da rua da Harmonia, Sophia, Carlos Maria, esse chocalho de rimas sonoras e delinquentes é tudo calumnia? Calumnia do leitor e do Rubião, não do pobre cocheiro, que não proferiu nomes, não chegou sequer a contar uma anecdota verdadeira. É o que terias visto, se lesses com pausa. Sim, desgraçado, adverte bem que era inverosimil que um homem, indo a uma aventura daquellas, fizesse parar o tilbury deante da casa pactuada. Seria pôr uma testemunha ao crime. Ha entre o ceu e a terra muitas mais ruas do que sonha a tua philosophia,—ruas transversaes, onde o tilbury podia ficar esperando.

—Bem; o cocheiro não soube compôr. Mas que interesse tinha em inventar a anecdota?

Conduzira Rubião a uma casa, onde o nosso amigo, ficou quasi duas horas, sem o despedir; viu-o sair, entrar no tilbury, descer logo e vir a pé, ordenando-lhe que o acompanhasse. Concluiu que era optimo freguez; mas, ainda assim não se lembrou de inventar nada. Passou, porém, uma senhora com um menino,—a da rua da Saude,—e Rubião quedou-se a olhar para ella com vistas de amor e melancolia. Aqui é que o cocheiro o teve por lascivo, além de prodigo, e encommendou-lhe as suas prendas. Se fallou em rua da Harmonia foi por suggestão do bairro d'onde vinham; e, se disse que trouxera um moço da rua dos Invalidos, é que naturalmente transportara de lá algum, na vespera,—talvez o proprio Carlos Maria,—ou porque lá morasse,—ou porque lá tivesse a cocheira,—qualquer outra circumstancia que lhe ajudou a invenção, como as reminiscencias do dia servem de materia aos sonhos da noite. Nem todos os cocheiros são imaginativos. Já é muito concertar farrapos da realidade.