—Foi sua prima que me disse; recommendou-me segredo. Não direi nada antes do tempo. Mas que tem que diga á senhora? A senhora é boa e merece tudo. Não é preciso esconder os olhos; casar não é vergonha. Vamos lá; levante a cabeça e ria.

Maria Benedicta poz nelle os olhos radiantes.

—Isso! applaudiu Rubião. Que mal ha em confessar-se a um amigo? Deixe-me dizer-lhe a verdade; creio que a senhora será feliz, mas admitto que elle ainda será mais feliz. Não? Verá se não fallo verdade; elle mesmo lhe hade dizer o que sentir, e, se fôr sincero, a senhora reconhecerá que eu estou apenas prophetisando. Bem sei que não tem balança para medir os sentimentos; emfim, o que eu quero dizer é que a senhora é uma linda e boa creatura... Vá, vá-se embora; se não, fico dizendo verdades, e a senhora está corando muito...

De facto, Maria Benedicta corava de gosto, ouvindo a linguagem de Rubião. Em casa, achára acquiescencia, nada mais. O proprio Carlos Maria não era assim terno; gostava della com circumspecção. Fallava-lhe da felicidade conjugal, como de uma taxa que ia receber do destino,—pagamento devido, integral e certo. Tambem não era preciso que lhe fallasse de outro modo, para que ella o adorasse sobre todas as cousas deste mundo. Rubião repetiu a despedida, e ficou a olhar para ella, como para uma filha. Viu-a ir assim, atravessar a sala, viva e satisfeita,—tão diversa do que a achára em outros tempos, e desapparecer por uma das portas. Não pode reter esta palavra:

—Linda e boa creatura!


[CAPITULO CXVII]

A historia do casamento de Maria Benedicta é curta; e, posto Sophia a ache vulgar, vale a pena dizel-a. Fique desde já admittido que, senão fosse a epidemia das Alagoas, talvez não chegasse a haver casamento; donde se conclue que as catastrophes são uteis, e até necessarias. Sobejam exemplos; mas basta um contosinho que ouvi em creança, e que aqui lhes dou em duas linhas. Era uma vez uma choupana que ardia na estrada; a dona,—um triste molambo de mulher,—chorava o seu desastre, a poucos passos, sentada no chão. Senão quando, indo a passar um homem ebrio, viu o incendio, viu a mulher, perguntou-lhe se a casa era della.

—É minha, sim, meu senhor; é tudo o que eu possuia n'este mundo.

—Dá-me então licença que accenda alli o meu charuto?