—Não posso responder com certeza; mas tenho horror á banalidade, que é dizer mal da religião. E basta; vim á missa, não vim confessar-me; agora vou conduzil-a á casa, e, se me offerecer almoço, almoçarei com vocês. Salvo se quizerem vir almoçar commigo; é nesta rua, como sabe.
—Iria eu só, se pudesse ser, para lhe dar uma noticia muito comprida.
—Vamos então devagar, disse Carlos Maria á porta da egreja, offerecendo-lhe o braço. E dous passos adeante:—Noticia importante?
—Importante e deliciosa.
—Querem ver que Deus, sempre misericordioso, vae levar para si o nosso querido Theophilo, deixando aqui ao desamparo a mais gentil de todas as viuvas... Não precisa fazer essa cara, prima; deixe estar o braço. Vamos á noticia. Chegou a moça de Pelotas, aposto?
—Não direi o que é, se você me não jurar ouvir seriamente.
—Seriamente.
D. Fernanda confessou-lhe que hesitava em casal-o com a patricia de Pelotas; não queria remorsos; descobrira aqui alguem que tinha ao primo um immenso amor. Carlos Maria sorriu, iniciou um gracejo, mas a noticia esporeou-lhe o espirito. Immenso amor? Immenso amor, paixão violenta, confirmou a prima, accrescentando que talvez a definição já não coubesse bem ao actual sentimento da pessoa, Agora era uma adoração quieta e calada. Tinha chorado por elle noites e noites, emquanto as esperanças lhe duraram... E D. Fernanda foi assim repetindo a confidencia de Maria Benedicta. Restava só o nome; Carlos Maria quiz sabel-o, ella negou-lh'o. Não podia revellal-o. Para que dar-lhe o gosto de saber quem era que o adorava, se não corria ao encontro da alma della? Melhor era deixal-a no mysterio. Já não chorava agora; modesta e desambiciosa, perdera as esperanças de ser amada, e, com o tempo ficou apenas uma devota, mas uma devota sem par, que nem sequer esperava ser ouvida ou agraciada um dia por um olhar benevolo do seu deus querido.
—Prima, você...
—Eu que?...