As borboletas perderam-se em uma das moitas mais densas da cêrca. Seguiu-se outra chacara, despida de arvores, portão aberto, e ao fundo, fronteando com o portão, uma casa velha, que encarquilhava os olhos sob a forma de cinco janellas de peitoril, cançadas de perder moradores. Tambem ellas tinham visto bodas e festins; o seculo ja as achou verdes de novidade e de esperança.

Não cuideis que esse aspecto contristou a alma do cavalleiro. Ao contrario, elle possuia o dom particular de remoçar as ruinas e viver da vida primitiva das cousas. Gostou até de ver a casa velhusca, desbotada, em contraste com as borboletas tão vivas de ha pouco. Parou o cavallo; evocou as mulheres que por alli entraram, outras galas, outros rostos, outras maneiras. Porventura as proprias sombras das pessoas felizes e extinctas vinham agora cumprimental-o tambem, dizendo-lhe pela bocca invisivel todos os nomes sublimes que pensavam delle. Chegou a ouvil-as e sorrir. Mas uma voz estridula veiu mesclar-se ao concerto;—um papagaio, em gaiola pendente da parede externa da casa: «Papagaio real, para Portugal; quem passa? Currupá, papá. Grrrr... Grrrrr...» As sombras fugiram, o cavallo foi andando. Carlos Maria aborrecia o papagaio, como aborrecia o macaco, duas contrafacções da pessoa humana, dizia elle.

—A felicidade que eu lhe der será assim tambem interrompida? reflexionou andando.

Cambaxirras voaram de um para outro lado da rua, e pousaram cantando a sua falla propria; foi uma reparação. Essa lingua sem palavras era intelligivel, dizia uma porção de cousas claras e bellas. Carlos Maria chegou a ver naquillo um symbolo de si mesmo. Quando a mulher, aturdida dos papagaios do mundo, viesse caindo de fastio, elle a faria erguer aos trillos da passarada divina, que trazia em si, ideias de ouro, ditas por uma voz de ouro. Oh! como a tornaria feliz! Já a antevia ajoelhada, com os braços postos nos seus joelhos, a cabeça nas mãos e os olhos nelle, gratos, devotos, amorosos, toda implorativa, toda nada.


[CAPITULO CXXIII]

Ora bem, aquelle quadro, na mesma hora em que apparecia aos olhos da imaginação do noivo, reproduzia-se no espirito da noiva, tal qual. Maria Benedicta, posta á janella, fitando as ondas que se quebravam ao longe e na praia, via-se a si mesma, ajoelhada aos pés do marido, quieta, contricta, como á mesa da communhão para receber a hostia da felicidade. E dizia comsigo: «Oh! como elle me fará feliz!» Phrase e pensamento eram outros, mas a attitude e a hora eram as mesmas.


[CAPITULO CXXIV]

Casaram-se; tres mezes depois foram para a Europa. Ao despedir-se delles, D. Fernanda estava tão alegre como se viesse recebel-os de volta; não chorava. O prazer de os ver felizes era maior que o desgosto da separação.