No começo da semana seguinte, recebendo os jornaes da corte (ainda assignaturas do Quincas Borba) leu Rubião esta noticia em um d'elles:

«Falleceu hontem o Sr. Joaquim Borba dos Santos, tendo supportado a molestia com singular pbilosophia. Era homem de muito saber, e cançava-se em batalhar contra esse pessimismo amarello e enfesado que ainda nos ha de chegar aqui um dia; é a molestia do seculo. A ultima palavra delle foi que a dor era uma illusão, e que Pangloss não era tão tolo como o inculcou Voltaire... Já então delirava. Deixa muitos bens. O testamento está em Barbacena.»


[CAPITULO XII]

—Acabou de soffrer! suspirou Rubião.

Em seguida, attentando na noticia, viu que fallava de um homem que tinha apreço, consideração, a quem se attribuia uma peleja philosophica. Nenhuma allusão a demencia. Ao contrario, o final dizia que elle delirára a ultima hora, effeito da molestia. Ainda bem! Rubião leu novamente a carta, e a hypothese da troça pareceu outra vez mais verosimil. Concordou que elle tinha graça; com certeza, quiz debical-o; foi a Santo Agostinho, como iria a Santo Ambrosio ou a Santo Hilario, e escreveu uma carta enigmatica, para confundil-o, até voltar e rir-se do logro. Pobre amigo! Estava são,—são e morto. Sim, já não padecia nada. Vendo o cachorro, suspirou:

—Coitado do Quincas Borba! Se pudesse saber que o senhor morreu ...

Depois, comsigo:

—Agora, que já acabou a obrigação, vou dal-o á comadre Angelica.