Desatinada, quiz ordenar ao cocheiro que parasse; mas a ideia de um possivel escandalo fel-a deter-se a meio caminho. O coupé entrara na rua Bella da Princeza. Sophia novamente pediu a Rubião que advertisse na inconveniencia de irem assim, á vista de Deus e de todo mundo, Rubião respeitou o escrupulo, e propoz que descessem as cortinas.

—Eu acho que não faz mal que nos vejam, explicou Rubião; mas, fechando as cortinas, ninguem nos vê. Se quer?

Sem aguardar resposta, desceu as cortinas de um e outro lado, e ficaram os dous a sós, porque, se de dentro podiam ver uma ou outra pessoa que passasse, de fóra ninguem os via. Sós, completamente sós, como naquelle dia em que ás mesmas duas horas da tarde, em casa d'ella, Rubião lhe lançou em rosto os seus desesperos. Lá, ao menos, a moça, estava livre; aqui dentro do carro fechado, não podia calcular as consequencias.

Rubião, entretanto, accommodára as pernas e não dizia nada.


[CAPITULO CLII]

Sophia encolhera-se muito ao canto. Podia ser extranheza da situação, podia ser medo; mas era principalmente repugnancia. Nunca esse homem lhe fez sentir tanta aversão, asco, ou outra cousa menos dura, se querem, mas que se reduzia á incompatibilidade,—como direi que não aggrave os ouvidos?—á incompatibilidade da epiderme. Onde iam os sonhos de ha poucos dias? Ao simples convite de um passeio, a sós, á Tijuca, subiu com elle a montanha, a galope, desmontou, ouviu palavras de adoração, e sentiu um beijo na nuca. Onde iam essas imaginações? Onde iam os olhos fixos e grandes, as mãos amigas e longas, os pés inquietos, as palavras meigas e os ouvidos cheios de misericordia? Tudo esqueceu, tudo desappareceu, agora que ambos se achavam deveras sós, insulados pelo carro e pelo escandalo.

E os cavallos continuavam a andar, sacudindo as patas, arrastando lentamente o carro, pelas pedras da rua Bella da Princeza. Que faria ella chegando ao Cattete? iria á cidade com elle? Pensou em seguir para a casa de alguma amiga deixal-o-hia dentro, diria ao cocheiro que se fosse embora. Contaria tudo ao marido. No meio daquella agonia, atravessaram-lhe o cerebro algumas memorias banaes, ou extranhas á situação, como a noticia de um roubo de joias lida de manhã nos jornaes, a ventania da vespera, um chapéo. Afinal fixou-se em um só cuidado. Que lhe ia dizer o Rubião? Viu que elle continuava a olhar para a frente, calado, com o castão da bengala no queixo. Não lhe ficava mal a attitude, tranquilla, séria, quasi indifferente; mas então para que se metteu no carro? Sophia quiz romper o silencio; por duas vezes moveu nervosamente as mãos; quasi que a irritou a quietação do homem, cuja acção só podia ser explicada pela paixão antiga e violenta. Depois, imaginou que elle proprio estaria arrependido, e disse-lh'o em bons termos.

—Não vejo que me possa arrepender de cousa nenhuma, acudiu elle, voltando-se. Quando a senhora disse que era máu irmos assim, á vista do publico, abaixei as cortinas. Não concordei, mas obedeci.

—Chegamos ao Cattete, atalhou ella; quer que o leve a casa? Não podemos ir juntos para a cidade.