Nada de cachorro. Só então é que elle se lembrou de havel-o mandado dar á comadre Angelica. Correu á casa da comadre, que era distante. De caminho accudiram-lhe todas as ideias feias, algumas extraordinarias. Uma ideia feia, é que o cão tivesse fugido. Outra extraordinaria é que algum inimigo, sabedor da clausula e do presente, fosse ter com a comadre, roubasse o cachorro, e o escondesse ou matasse. Neste caso, a herança... Passou-lhe uma nuvem pelos olhos; depois começou a vêr mais claro.

—Não conheço negocios de justiça, pensava elle, mas parece que não tenho nada com isso. A clausula suppõe o cão vivo ou em casa; mas se elle fugir ou morrer, não se ha de inventar um cão; logo, a intenção principal... Mas são capazes de fazer chicana os meus inimigos. Não cumprida a clausula...

Aqui a testa e as costas das mãos do nosso amigo ficaram em agua. Outra nuvem pelos olhos. E o coração batia-lhe rapido, rapido. A clausula começava a parecer-lhe extravagante. Rubião pegava-se com os santos, promettia missas, dez missas... Mas lá estava a casa da comadre. Rubião picou o passo; viu alguém; era ella? era, era ella, encostada á porta e rindo.

—Que figura que o senhor vem fazendo, meu compadre? Meio tonto, jogando com os braços.


[CAPITULO XVII]

—Sinhá comadre, o cachorro? perguntou Rubião com indifferença, mas pallido.

—Entre, e abanque-se, respondeu ella. Que cachorro?

—Que cachorro? tornou Rubião cada vez mais pallido. O que lhe mandei. Pois não se lembra que lhe mandei um cachorro para ficar aqui alguns dias, descançando, a ver se... em summa, um animal de muita estimação. Não é meu. Veiu para... Mas não se lembra?

—Ah! não me falle nesse bicho! respondeu ella precipitando as palavras.