[CAPITULO CLXXVIII]
D. Fernanda acceitou a proposta; não interrompia a educação do filho; era uma separação de quatro mezes. Theophilo partiu d'ahi a dias. Na manhã do dia do embarque, logo cedo, foi despedir-se do gabinete de trabalho. Deitou os ultimos olhos aos livros, relatorios, orçamentos, manuscriptos, a toda essa parte da familia, que só tinha lingua e interesse para elle. Havia atado os papeis e os folhetos para que se não extraviassem, e fez á mulher grandes recommendações. Parado no centro, circulou a vista pelas estantes, e dispersou a alma por todas ellas. Despedia-se assim dos seus santos e amigos, com verdadeiras saudades. D. Fernanda, que estava ao pé delle, não viveu alli mais que os dez minutos da despedida. Theophilo viveu muitos annos.
—Deixa estar, eu cuidarei delles, eu mesma os espanarei todos os dias.
Theophilo deu-lhe um beijo... Outra mulher recebel-o-hia meia triste, por ver que elle amava tanto os livros que parecia amal-os mais que a ella. Mas D. Fernanda sentiu-se venturosa.
[CAPITULO CLXXIX]
Rubião, desde o dia da crise ministerial, não tornou á casa de D. Fernanda; nada soube, nem da presidencia, nem do embarque de Theophilo. Vivia entre o cão e um creado, sem grandes crises, nem longos repousos. O creado fazia o serviço irregularmente, comia gratificações, e recebia, a miudo, o titulo de marquez. Ao demais, divertia-se. Quando lhe dava ao amo para conversar com as paredes, o creado corria a espial-o; assistia ao dialogo, porque o Rubião incumbia-se das palavras dellas, respondendo como se houvessem feito alguma pergunta. De noite, ia á palestra com os amigos da visinhança.
—Como vae o gira?
—O gira vae bem. Hoje convidou o cachorro para cantar; o cachorro ladrau muito, e elle gostou que se pellou, mas assim um gosto de figurão. Elle, quando está de pancada, parece que é como quem governa o mundo. Ainda hontem, almoçando, fallou para mim: «Marquez Raymundo... quero que tu ..» e embrulhou o resto, que não entendi nada. No fim deu-me dez tostões.
—Você guardou logo...