O convite era poetico, mas só o convite. Rubião, em quanto fallava, ia devorando a moça com olhos de fogo, e segurava-lhe uma das mãos para que ella não fugisse. Nem os olhos nem o gesto tinham poesia nenhuma. Sophia esteve a ponto de dizer alguma palavra aspera, mas engoliu-a logo, ao advertir que Rubião era um bom amigo da casa. Quiz rir, mas não pôde; mostrou se então arrufada, logo depois resignada, afinal supplicante; pediu-lhe pela alma da mãe delle, que devia estar no ceu... Rubião não sabia do ceu nem da mãe, nem de nada. Que era mãe? que era ceu? parecia dizer a cara delle.
—Ai, não me quebre os dedos! suspirou baixinho a moça.
Aqui é que elle começou a voltar a si; afrouxou a pressão, sem soltar-lhe os dedos.
—Vá, disse elle, mas primeiro...
Inclinava-se para beijar a mão, quando uma voz, a alguns passos, veiu accordal-o inteiramente.
[CAPITULO XLII]
—Olá! estão apreciando a lua? Realmente, está deliciosa; está uma noite para namorados... Sim, deliciosa... Ha muito que não vejo uma noite assim... Olhem só para baixo, os bicos de gaz... Deliciosa! para namorados... Os namorados gostam sempre da lua. No meu tempo, em Icarahy...
Era Siqueira, o terrivel major. Rubião não sabia que dissesse; Sophia, passados os primeiros instantes readquiriu a posse de si mesma; respondeu que, em verdade, a noite era linda; depois contou que Rubião teimava em dizer que as noites do Rio não podiam comparar-se ás de Barbacena, e, a proposito disso, referira uma anecdota de um padre Mendes... Não era Mendes?
—Mendes, sim, o padre Mendes, murmurou o Rubião.