—Sou um ingrato! disse comsigo.
Emendou-se logo; mais ingrato era não ter pensado no outro Quincas Borba, que lhe deixou tudo. Vae se não quando, teve uma ideia extraordinaria, a de serem os dous Quincas Borbas a mesma creatura, por effeito da entrada da alma do defunto no corpo do cachorro, menos a purgar os seus peccados que a vigiar o dono. Foi uma preta de S. João d'El-rei que lhe metteu, em creança, essa ideia de transmigração. Dizia ella que a alma cheia de peccados ia para o corpo de um bruto; chegou a jurar que conhecera um escrivão que acabou feito gambá...
—Vossa Senhoria, não se esqueça de dizer onde é a casa, disse-lhe repentinamente o cocheiro.
—Pare. Já passámos, é aquella.
O tilbury deu volta e foi parar á porta; Rubião pagou e desceu.
[CAPITULO XLIX]
O cão ladrou de dentro; mas, logo que Rubião entrou, recebeu-o com grande alegria; e por mais importuno que fosse, Rubião desfez-se em caricias. A idéa de poder estar alli o testador dava-lhe arrepios. Subiram juntos a escada de pedra; alli ficaram por alguns instantes, á luz do lampeão que Rubião mandára deixar acceso. Rubião era mais credulo que crente; não tinha razões para atacar nem para defender nada:—terra eternamente virgem para se lhe plantar qualquer cousa. A vida da côrte deu-lhe até uma particularidade; entre incredulos, chegava a ser incredulo...
Olhou para o cão, emquanto esperava que lhe abrissem a porta. O cão olhava para elle, de tal geito que parecia estar alli dentro o proprio e defuncto Quincas Borba; era o mesmo olhar meditativo do philosopho, quando examinava as cousas humanas... Novo arrepio; mas o medo, que era grande, não era tão grande que lhe atasse as mãos. Rubião estendeu-as sobre a cabeça do animal, coçando-lhe as orelhas e a nuca.
—Pobre Quincas Borba! Gosta de seu senhor, não gosta? Rubião é muito amigo de Quincas Borba...