—Quem é este sujeito? pensou ella.
E entrou a cogitar donde é que o conhecia, porque, em verdade, a cara não lhe era extranha, nem as maneiras, nem os olhos placidos e grandes. Onde é que o teria visto? Percorreu varias casas, sem acertar com a verdadeira; afinal pensou em certo baile,—no mez anterior,—em casa de um advogado que fazia annos. Era isso; viu-o lá, dansaram uma quadrilha, por simples condescendencia delle, que não dansava nunca; lembrava-se de lhe ter ouvido muitas cousas agradaveis, relativamente á belleza da mulher, que, dizia elle, consistia principalmente nos olhos e nos hombros. Os della, como sabemos, eram magnificos. E quasi não tratou de outra cousa,—os hombros e os olhos;—a proposito de uns e outros contou varias anecdotas succedidas com elle, algumas sem interesse, mas fallava tão bem! e o assumpto era tão della! É verdade; lembrava-se agora que, apenas elle a deixou, Palha veiu ter com ella, sentou-se na cadeira, ao lado, e disse-lhe o nome do rapaz, porque ella não ouvira bem á pessoa que lh'o apresentara era Carlos Maria,—o proprio do almoço do nosso Rubião.
—É a primeira figura do salão, disse-lhe o marido com orgulho de vêr que se occupára tanto tempo com ella.
—Entre os homens, explicou Sophia.
—Entre as senhoras és tu, acudiu elle mirando-se no collo da mulher, e circulando depois os olhos pela sala, com uma expressão de posse e dominio, que a mulher já conhecia e que lhe fazia bem.
Quando acabou de recordar tudo, já iria longe o rapaz; ao menos, foi uma interrupção na serie de tedios que lhe tomavam a alma. Tinha uma dor nas costas, que se calára por instantes. Voltou logo, teimosa, aborrecida; Sophia reclinou-se na cadeira e fechou os olhos. Quiz ver se passava pelo somno, mas não pôde. Os pensamentos eram tão teimosos como a dor, e ainda mais ruins que ella. De quando em quando um bater de azas, rapido, quebrava o silencio: eram as pombas de uma casa visinha que tornavam ao pombal. Sophia a principio abriu os olhos, umas duas vezes; depois, acostumou-se ao rumor, e deixou-os fechados, a ver se dormia. Passado algum tempo, ouviu passos na rua, e levantou a cabeça, suppondo que era Carlos Maria que regressava; era um carteiro que lhe trazia uma carta da roça. Entregou-lh'a em mão. Ao sair do jardim, tropeçou o carteiro no pé de um banco e caiu de bruços, espalhando as cartas no chão. Sophia não pôde conter o riso.
[CAPITULO LIII]
Perdoem-lhe esse riso. Bem sei que o desassocego, a noite mal passada, o terror da opinião, tudo contrasta com esse riso inopportuno. Mas, leitora amada, talvez a senhora nunca visse cair um carteiro. Os deuses de Homero,—e mais eram deuses,—debatiam uma vez no Olympo, gravemente, e até furiosamente. A orgulhosa Juno, ciosa dos colloquios de Thetis e Jupiter em favor de Achilles, interrompe o filho de Saturno. Jupiter troveja e ameaça; a esposa treme de colera. Os outros gemem e suspiram. Mas quando Vulcano pega da urna de nectar, e vae coxeando servir a todos, rompe no Olympo uma enorme gargalhada inextinguivel. Porque? Senhora minha, com certeza nunca viu cair um carteiro.
Ás vezes, nem é preciso que elle caia; outras vezes nem é sequer preciso que exista. Basta imaginal-o ou recordal-o. A sombra da sombra de uma lembrança grotesca projecta-se no meio da paixão mais aborrecivel, e o sorriso vem ás vezes á tona da cara, leve que seja,—um nada. Deixemol-a rir, e ler a sua carta da roça.