Membro da assemblea provincial, logo depois da camara dos deputados, presidente de uma provincia de segunda ordem, onde, por natural mudança do destino, leu nas folhas da opposição todos os nomes que escrevera outr'ora, nefasto, esbanjador, vergonhoso, perverso, Camacho teve dias grandes e pequenos, andou fóra e dentro da camara, fallou, escreveu, lutou constantemente. Acabou por vir morar na capital do imperio. Deputado da conciliação dos partidos, viu governar o marquez de Paraná, e instou por algumas nomeações, em que foi attendido; mas, se é certo que o marquez lhe pedia conselhos, e usava confiar-lhe os planos que trazia, ninguem podia affirmal-o, porque elle, em se tratando da propria consideração, mentia sem difficuldade.
O que se pode crer é que queria ser ministro, e trabalhou por obtel-o. Aggregou-se a varios grupos, segundo lhe parecia acertado; na camara discorria largamente sobre materias de administração, accumulava algarismos, artigos de legislação, pedaços de relatorio, trechos de autores francezes, embora mal traduzidos. Mas, entre a espiga e a mão, está o muro de que falla o poeta; e por mais que o nosso homem estendesse a mão do seu desejo para colhel-a, a espiga la ficava do lado opposto, d'onde a arrancavam outras mãos, mais ou menos soffregas, ou até descuidadas.
Ha solteirões na politica. Camacho ia entrando nessa categoria melancolica, em que todos os sonhos nupciaes se evaporam com o tempo; mas não tinha a superioridade de abandonal-a. Ninguem que organisasse um gabinete se atrevia, ainda que o desejasse, a dar-lhe uma pasta. Camacho ia-se sentindo cair; para simular influencia, tratava familiarmente os poderosos do dia, contava em voz alta as visitas aos ministros e a outras dignidades do Estado; mas nem por isso dava um passo adeante.
Não lhe faltava que comer. A familia era pequena; mulher, uma filha, que ia nos dezoito annos, um afilhado de nove, e para isso dava a advocacia. Mas trazia a politica no sangue; não lia, quasi não fallava de outra cousa. De litteratura, sciencias naturaes, historia, philosophia, artes, não se preoccupava absolutamente nada. Tambem não conhecia grandes cousas de direito; guardava algum do que lhe dera a academia, e mais a legislação posterior e as praticas forenses. Com isso ia arrazoando e ganhando.
[CAPITULO LVIII]
Dias antes, indo passar a noite em casa de um conselheiro, viu alli Rubião. Fallava-se da chamada dos conservadores ao poder, e da dissolução da camara. Rubião assistira á sessão em que o ministerio Itaborahy pediu os orçamentos. Tremia ainda ao contar as suas impressões, descrevia a camara, tribunas, galerias cheias que não cabia um alfinete, o discurso de José Bonifacio, a moção, a votação... Toda essa narrativa nascia de uma alma simples; era claro. A desordem dos gestos, o calor da palavra tinham a eloquencia da sinceridade. Camacho escutava-o attento. Teve modo de o levar a um canto da janella, e fazer-lhe considerações graves sobre a situação. Rubião opinava de cabeça, ou por palavras soltas e approbatorias.
—Os conservadores não se demoram no poder, disse-lhe finalmente Camacho.
—Não?
—Não; elles não querem a guerra, e tem de cahir por força. Veja como andei bem no programma da folha.