Então Sophia inventava passeios, á toa, para fazel-a descançar. Ora um bairro, ora outro. Em certas ruas, Maria Benedicta não perdia tempo: lia as taboletas francezas, e perguntava pelos substantivos novos, que a prima, algumas vezes, não sabia dizer o que eram, tão estrictamente adequado era o seu vocabulario ás cousas do vestido, da sala e do galanteio.

Mas não era só nessas disciplinas que Maria Benedicta fazia progressos rapidos. A pessoa ajustára-se ao meio, mais depressa do que fariam crer o gosto natural e a vida da roça. Já competia com a outra, embora houvesse nesta um desgarre, e não sei que expressão particular que, para assim dizer, dava côr a todas as linhas e gestos da figura. Não obstante essa differença, é certo que a outra era vista e notada ao pé della, de tal geito que Sophia, que começára por louval-a em toda a parte, não a deslouvava agora, mas ouvia calada as admirações. Fallava bem;—mas, quando calava, era por muito tempo; dizia que eram os seus «calundús». Contradansava sem vida, que é a perfeição desse genero de recreio; gostava muito de ver polkar e valsar. Sophia, imaginando que era por medo que a prima não valsava nem polkava, quiz dar-lhe algumas lições em casa, sosinhas, com o marido ao piano; mas a prima recusava sempre.

—Isso é ainda um bocadinho de casca da roça, disse-lhe uma vez Sophia.

Maria Benedicta sorriu de um modo tão particular, que a outra não insistiu. Não foi riso de vexame, nem de despeito, nem de desdem. Desdem, porque? Comtudo, é certo que o riso parecia vir de cima. Não menos o é que Sophia polkava e valsava com ardor, e ninguem se pendurava melhor do hombro do parceiro; Carlos Maria, que era raro dansar, só valsava com Sophia,—dous ou tres giros, dizia elle;—Maria Benedicta contou uma noite quinze minutos.


[CAPITULO LXIX]

Os quinze minutos foram contados no relogio do Rubião, que estava ao pé da Maria Benedicta, e a quem ella perguntou duas vezes que horas eram, no principio e no fim da valsa. A propria moça inclinou-se para ver bem o ponteiro dos minutos.

—Está com somno? perguntou Rubião.

Maria Benedicta olhou para elle de soslaio. Viu-lhe o rosto placido, sem intenção nem riso.

—Não, respondeu; digo-lhe até que estou com medo que prima Sophia se lembre de ir cedo para casa.