Teve então uma idéa, a de amanhecer morto. Esta hypothese, a melhor de todas, porque o apanharia meio morto, trouxe comsigo mil phantasias que lhe arredaram o somno dos olhos. Em parte, era a repetição das outras, a participação á Camara, as palavras do presidente, commissão para o sahimento, e o resto. Ouviu lastimas de amigos e de famulos, viu noticias impressas, todas lisonjeiras ou justas. Chegou a desconfiar que era já sonho. Não era. Chamou-se ao quarto, á cama, a si mesmo: estava accordado.
A lamparina deu melhor corpo á realidade. Cordovil espancou as idéas funebres e esperou que as alegres tomassem conta delle e dançassem até cançal-o. Tentou vencer uma visão com outra. Fez até uma cousa engenhosa, convocou os cinco sentidos, porque a memoria de todos elles era aguda e fresca; foi assim evocando lances e rasgos longamente extinctos. Gestos, scenas de sociedade e de familia, panoramas, repassou muita cousa vista, com o aspecto do tempo diverso e remoto. Deixára de comer acepipes que outra vez lhe sabiam, como se estivesse agora a mastigal-os. Os ouvidos escutavam passos leves e pesados, cantos joviaes e tristes, e palavras de todos os feitios. O tacto, o olfacto, todos fizeram o seu officio, durante um prazo que elle não calculou.
Cuidou de dormir e cerrou bem os olhos. Não poude, nem do lado direito, nem do esquerdo, de costas nem de bruços. Ergueu-se e foi ao relogio; eram tres horas. Insensivelmente levou-o á orelha a ver se estava parado; estava andando, déra-lhe corda. Sim, tinha tempo de dormir um bom somno; deitou-se, cobriu a cabeça para não ver a luz.
Ah! foi então que o somno tentou entrar, calado e surdo, todo cautellas, como seria a morte, se quizesse leval-o de repente, para nunca mais. Cordovil cerrou os olhos com força, e fez mal, porque a força accentuou a vontade que tinha de dormir; cuidou de os afrouxar, e fez bem. O somno, que ia a recuar, tornou atraz, e veiu estirar-se ao lado delle, passando-lhe aquelles braços leves e pesados, a um tempo, que tiram á pessoa todo movimento. Cordovil os sentia, e com os seus quiz conchegal-os ainda mais... A imagem não é boa, mas não tenho outra á mão nem tempo de ir buscal-a. Digo só o resultado do gesto, que foi arredar o somno de si, tão aborrecido ficou este reformador de cançados.
—Que terá elle hoje contra mim? perguntaria o somno, se falasse.
Tu sabes que elle é mudo por essencia. Quando parece que fala é o sonho que abre a boca á pessoa; elle não, elle é a pedra, e ainda a pedra fala, se lhe batem, como estão fazendo agora os calceteiros da minha rua. Cada pancada accorda na pedra um som, e a regularidade do gesto torna aquelle som tão pontual que parece a alma de um relogio. Vozes de conversa ou de pregão, rodas de carro, passos de gente, uma janella batida pelo vento, nada dessas cousas que ora ouço, animava então a rua e a noite de Cordovil. Tudo era propicio ao somno.
Cordovil ia finalmente dormir, quando a idéa de amanhecer morto appareceu outra vez. O somno recuou e fugiu. Esta alternativa durou muito tempo. Sempre que o somno ia a grudar-lhe os olhos, a lembrança da morte os abria, até que elle sacudiu o lençol e saiu da cama. Abriu uma janella e encostou-se ao peitoril. O céu queria clarear, alguns vultos iam passando na rua, trabalhadores e mercadores que desciam para o centro da cidade. Cordovil sentiu um arrepio; não sabendo se era frio ou medo, foi vestir um camisão de chita, e voltou para a janella. Parece que era frio, porque não sentia mais nada.
A gente continuava a passar, o céu a clarear, e um assobio da estrada de ferro deu signal de trem que ia partir. Homens e cousas vinham do descanço; o céu fazia economia de estrellas, apagando-as, á medida que o sol ia chegando para o seu officio. Tudo dava idéa de vida. Naturalmente a idéa da morte foi recuando e desappareceu de todo, emquanto o nosso homem, que suspirou por ella no Cassino, que a desejou para o dia seguinte na Camara dos deputados, que a encarou no carro, voltou-lhe as costas quando a viu entrar com o somno, seu irmão mais velho,—ou mais moço, não sei.
Quando veiu a fallecer, muitos annos depois, pediu e teve a morte, não subita, mas vagarosa, a morte de um vinho filtrado, que sae impuro de uma garrafa para entrar purificado em outra; a borra iria para o cemiterio. Agora é que lhe via a philosophia; em ambas as garrafas era sempre o vinho que ia ficando, até passar inteiro e pingado para a segunda. Morte subita não acabava de entender o que era.