—Ou antes, eu já escolhi, continuou elle; escolhi a Raymunda. Gosto muito da Raymunda. Tu, escolhe a outra.
—A Maria?
—Pois que outra ha de ser.
O alvoroço que me deu este tentador foi tal que não achei palavra de recusa, nem palavra nem gesto. Tudo me pareceu natural e necessario. Sim, concordei em escolher Maria; era mais velha que eu tres annos, mas tinha a edade conveniente para ensinar-me a amar. Está dito, Maria. Deitámo-nos ás duas conquistas com ardor e tenacidade. Barreto não tinha que vencer muito; a eleita delle não trazia amores, mas até pouco antes padecêra de uns que rompêra contra a vontade, indo o amante casar com uma moça de Minas. Depressa se deixou consolar. Barreto um dia, estando eu a almoçar, veiu annunciar-me que recebêra uma carta della, e mostrou-m'a.
—Estão entendidos?
—Estamos. E vocês?
—Eu não.
—Então quando?
—Deixa ver; eu te digo.
Naquelle dia fiquei meio vexado. Com effeito, apezar da melhor vontade deste mundo, não me atrevia a dizer a Maria os meus sentimentos. Não supponhas que era nenhuma paixão. Não tinha paixão, mas curiosidade. Quando a via esbelta e fresca, toda calor e vida, sentia-me tomado de uma força nova e mysteriosa; mas, por um lado, não amára nunca, e, por outro, Maria era a companheira de meu amigo. Digo isto, não para explicar escrupulos, mas unicamente para fazer comprehender o meu acanhamento. Viviam juntos desde alguns annos, um para o outro. X... tinha confiança em mim, confiança absoluta, communicava-me os seus negocios, contava-me cousas da vida passada. Apezar da desproporção da edade, eramos como estudantes do mesmo anno.