Era o dia dos desconhecidos. Desta vez estavam em burros, e um dos dous era mulher. Vinham da roça. Tio Zéca foi ter com elles ao meio da rua, depois de dizer que esperassemos. Os animaes pararam, creio que de si mesmos, por tambem conhecerem a tio Zéca, idéa que Felicia reprovou com o gesto, e que eu defendi rindo. Teria apenas meia convicção; tudo era folgar. Fosse como fosse, esperámos os dous, examinando o casal de roceiros. Eram ambos magros, a mulher mais que o marido, e tambem mais moça; elle tinha os cabellos grisalhos. Não ouvimos o que disseram, elle e tio Zéca; vimol-o, sim, o marido olhar para nós com ar de curiosidade, e falar á mulher, que tambem nos deitou os olhos, agora com pena ou cousa parecida. Emfim apartaram-se, tio Zéca veiu ter comnosco e enfiámos para casa.

A casa ficava na rua proxima, perto da esquina. Ao dobrarmos esta, vimos os portaes da casa forrados de preto,—o que nos encheu de espanto. Instinctivamente parámos e voltámos a cabeça para tio Zéca. Este veiu a nós, deu a mão a cada um e ia a dizer alguma palavra que lhe ficou na garganta; andou, levando-nos comsigo. Quando chegámos, as portas estavam meio cerradas. Não sei se lhes disse que era um armarinho. Na rua, curiosos. Nas janellas fronteiras e lateraes, cabeças agglomeradas. Houve certo reboliço quando chegámos. É natural que eu tivesse a boca aberta, como Felicia. Tio Zéca empurrou uma das meias portas, entrámos os tres, elle tornou a cerral-a, metteu-se pelo corredor e fomos á sala de jantar e á alcova.

Dentro, ao pé da cama, estava minha mãe com a cabeça entre as mãos. Sabendo da nossa chegada, ergueu-se de salto, veiu abraçar-nos entre lagrimas, bradando:

—Meus filhos, vosso pae morreu!

A commoção foi grande, por mais que o confuso e o vago entorpecessem a consciencia da noticia. Não tive forças para andar, e teria medo de o fazer. Morto como? morto porque? Estas duas perguntas, se as metto aqui, é para dar seguimento á acção; naquelle momento não perguntei nada a mim nem a ninguem. Ouvia as palavras de minha mãe, que se repetiam em mim, e os seus soluços que eram grandes. Ella pegou em nós e arrastou-nos para a cama, onde jazia o cadaver do marido; e fez-nos beijar-lhe a mão. Tão longe estava eu daquillo que, apezar de tudo, não entendêra nada a principio; a tristeza e o silencio das pessoas que rodeavam a cama, ajudaram a explicar que meu pae morrêra devéras. Não se tratava de um dia santo, com a sua folga e recreio, não era festa, não eram as horas breves ou longas, para a gente desfiar em casa, arredada dos castigos da escola. Que essa queda de um sonho tão bonito fizesse crescer a minha dôr de filho não é cousa que possa affirmar ou negar; melhor é calar. O pae alli estava defunto, sem pulos, nem danças, nem risadas, nem bandas de musica, cousas todas tambem defuntas. Se me houvessem dito á saida da escola porque é que me iam lá buscar, é claro que a alegria não houvera penetrado o coração, donde era agora expellida a punhadas.

O enterro foi no dia seguinte ás nove horas da manhã, e provavelmente lá estava aquelle amigo de tio Zeca que se despediu na rua, com a promessa de ir ás nove horas. Não vi as cerimonias; alguns vultos, poucos, vestidos de preto, lembra-me que vi. Meu padrinho, dono de um trapiche, lá estava, e a mulher tambem, que me levou a uma alcova dos fundos para me mostrar gravuras. Na occasião da saida, ouvi os gritos de minha mãe, o rumor dos passos, algumas palavras abafadas de pessoas que pegavam nas alças do caixão, creio eu: «—vire de lado,—mais á esquerda,—assim,—segure bem...» Depois, ao longe, o coche andando e as seges atraz delle...

Lá iam meu pae e as férias! Um dia de folga sem folguedo! Não, não foi um dia, mas oito, oito dias de nojo, durante os quaes alguma vez me lembrei do collegio. Minha mãe chorava, cosendo o luto, entre duas visitas de pesames. Eu tambem chorava; não via meu pae ás horas do costume, não lhe ouvia as palavras á mesa ou ao balcão, nem as caricias que dizia aos passaros. Que elle era muito amigo de passaros, e tinha tres ou quatro, em gaiolas. Minha mãe vivia calada. Quasi que só falava ás pessoas de fóra. Foi assim que eu soube que meu pae morrêra de apoplexia. Ouvi esta noticia muitas vezes; as visitas perguntavam pela causa da morte, e ella referia tudo, a hora, o gesto, a occasião: tinha ido beber agua, e enchia um copo, á janella da área. Tudo decorei, á força de ouvil-o contar.

Nem por isso os meninos do collegio deixavam de vir espiar para dentro da minha memoria. Um delles chegou a perguntar-me quando é que eu voltaria.

—Sabbado, meu filho, disse minha mãe, quando lhe repeti a pergunta imaginada; a missa é sexta-feira. Talvez seja melhor voltar na segunda.

—Antes sabbado, emendei.