Es comedia de Don Pedro
Calderon, d'onde hade haber,
Por fuerza, amante escondido
Y rebozada mujer.

Ha alli com effeito mulheres rebuçadas e amantes escondidos, e tanta vida como nas peças de Calderon.

Não trato aqui do facto que poderia ter dado logar á obra do judeu, nem das duvidas de Costa e Silva sobre se os dois ranchos do alecrim e da mangerona existiam antes da comedia, ou se esta os fez nascer; é investigação que não vale a pena de um minuto, e aliás o texto do poeta é claro. Em tudo se avantaja o Alecrim e mangerona, até na linguagem, que é ahi muito menos obscena que nas outras, differença que se póde attribuir ao progresso do talento, porquanto já no Labyrintho de Creta se dá o mesmo phenomeno. Não direi, como Garrett, que essa peça teria hoje todo o valor de uma comedia historica; mas assim mesmo, quem lhe vê as figuras, a seculo e meio de distancia, parece contemplar uma gravura em que ellas conservam as feições e o vestuario do tempo,—os namorados pobres, o velho avarento que arde por se ver livre das sobrinhas, e que, ao annunciarem-lhe a chegada do pretendente provinciano, manda deitar «mais um ovo nos espinafres,» D. Tiburcio, as duas damas, o Semicupio e a velha Fagundes, todo o pessoal da antiga farça.

Superior ás outras composições, como estylo e originalidade, não menos o é como viveza, graça e movimento: e, se a farça domina, não é tanto que não appareça a comedia. Basta apontar, por exemplo, a scena da consulta medica, por occasião do desastre de D. Tiburcio, que é uma das melhores do theatro do judeu, e não ficaria vexada si a puzessemos ao lado das de Molière e Gil Vicente. Para não faltar nada, ha tambem aphorismos latinos, e até uma copla latina, digna de Molière. Podemos considerar o Alecrim e Mangerona como uma das melhores comedias do seculo XVIII.

Ler o Alecrim e Mangerona, o Amphytrião, a Esopaida e o D. Quixote, é avaliar todo o poeta, com suas qualidades boas e más, com o geito do seu espirito e influencia do seu tempo. Nicolau Luiz, Figueiredo, Diniz e Garção, no mesmo seculo, tiveram talvez mais intenção comica do que Antonio José, mas os meios deste eram maiores, possuiam outra virtualidade, outra espontaneidade, outra abundancia. Dir-se-ha que, se a Inquisição o deixára viver, Antonio José produziria alguma obra de esphera superior? Repito: não creio que elle subisse muito acima do Alecrim e Mangerona; iria talvez ao ponto de fazer alguma cousa parecida com o Avaro, mas não faria todo o Avaro.

Agora, a seculo e meio de distancia, podemos affirmar que Antonio José foi um destino decapitado. Qualquer que fosse a natureza do seu engenho, é fóra de duvida que o auto da fé em que elle pereceu, devorou com a mesma flamma assaz de paginas alegres e vivazes. A prova de que o theatro poderia ainda esperar muito de Antonio José, está na comparação das obras delle com a vida delle. Era um christão novo, como tal suspeitado e perseguido; aos vinte e um annos padeceu um primeiro processo, e sabe-se que terriveis eram os processos inquisitoriaes; basta dizer que o delinquente revelou todos os seus complices em judaismo, com a maior franqueza e minuciosidade, o que se póde explicar pela tenra edade do poeta, mas tambem pelo terror que o tribunal infundia, não menos que pela exhortação mansa com que os inquisidores extorquiam a confissão de todos os erros e a denuncia de todos os complices,—sem prejuizo, aliás, do carcere e da polé. Pois bem, não obstante os vestigios e as lembranças desse primeiro acto da Inquisição, não obstante o espectaculo do que padeciam os seus, as operas de Antonio José trazem o sabor de uma mocidade imperturbavelmente feliz, a facecia grossa e petulante, tal como lh'a pedia o paladar das platéas, nenhum vislumbre do episodio tragico, salvo uns versos do Amphytrião que se creem, (e, quanto a mim, sem outro fundamento além da conjectura) como applicaveis a elle mesmo. Mas ainda suppondo que a conjectura tenha razão, admittindo mais que a allegoria da justiça na Vida de D. Quixote seja o resumo das queixas pessoaes do poeta (supposição tão fragil como aquella), a verdade é que os successos da vida delle não influiram, não diminuiram a força nativa do talento, nem lhe torceram a natureza, que estava muito longe da hypocondria. Molière, que, se nem sempre teve flores no caminho, não conheceu o infimo dos padecimentos de Antonio José, foi o creador de Alceste; o nosso judeu, dado que tivesse a mesma intensidade de talento, não escolheria nunca o assumpto do Misanthropo.

Nisto, menos que em nenhuma outra cousa, imitaria elle o grande mestre. Não lhe fossem propôr graves problemas, nem maximas profundas, nem os caracteres, nem as altas observações que formam o argumento das comedias de outra esphera, nem sobretudo as melancolias de Molière e Shakespeare. O nosso judeu era a farça, a genuina farça, sem outras pretenções, sem mais remotas vistas que os limites do seu bairro e do seu tempo. Certo, eu posso hoje, á fina força, arrancar alguma idéa inicial das operas do judeu; por exemplo, ao ver nos Encantos de Medéa a dedicação da feiticeira de Colchos, que tráe os deveres filiaes e põe todas as suas artes ao serviço de Jason, ao ponto de lhe entregar o vellocino e ao ver que, apezar de tudo isto, o principe foge com Creusa, posso, digo eu, attribuir ao poeta a intenção de que o reconhecimento não é o caminho do amor e que um coração póde ser legitimamente ingrato. Seria logico, seria bem deduzido da acção, mas não passaria de obra da critica, inteiramente alheia á intenção do poeta, que achou no assumpto uma farça de tramoias e nada mais. Esta é a ultima conclusão que rigorosamente se póde tirar do poeta. Elle não imitou, não chegaria a imitar Molière, ainda que repetisse as transcripções que fez no Amphytrião; tinha originalidade, embora a influencia das operas italianas. Convenhamos que era um engenho sem disciplina, nem gosto, mas caracterisco e pessoal.

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