Yayá apertou-lhe a mão com força.—Vá, disse; tambem tenho de lhe dizer alguma cousa grave; mas ouçamos primeiro a sua explicação.
—Oh! custa pouco, acudiu Jorge. Escrevi o esboço da carta por me parecer que podia ser-lhe agradavel. Lembra-se que uma vez me havia falado naquelle sentido? Duvidei mais tarde, e disse-lh'o. Comtudo, havia tanta incerteza e contradicção entre suas palavras e acções, que não era difficil suppôr alguma cousa; ha paixões que começam assim caprichosamente. A carta era um meio de dizer ao pretendente que seus suspiros podiam não ser inuteis. Era isso; só isso. Confesso que adoptei o papel mais passivo, desinteressado, e não sei até se... creio que a senhora já o qualificou de ridiculo. A forma podia não ser grave, mas a intenção era affectuosa, e se merecia um riso, tambem merecia um aperto de mão. Esboçada a carta, não a mandaria sem mostral-a; foi o que fiz; mas sua reprovação foi tão eloquente, que me fez cair em mim e reconhecer que a carta era de mais.
—Era de menos.
—Queria então que fosse eu proprio a Buenos-Ayres? perguntou Jorge sorrindo.
—Queria, se ao chegar lhe dissesse:—Pense em outra cousa; Yayá não o ama.
—Para isso, basta que lhe não diga nada.
—Não o ama, repetiu a moça; não o ama, não o ama.
—Desta vez é serio e definitivo?
—Que admira? replicou a moça com gravidade. Não lhe parece a cousa mais natural do mundo que uma moça não ame o Procopio Dias? Não sei o que são os outros homens; poucos tenho visto; nossa vida é tão retirada! Mas, emfim, não me parece que o Procopio Dias seja homem de se ficar morrendo por elle. E comtudo elle morre por mim. Meu coração perdoa-lhe; é o mais que pode fazer. Acceital-o seria impossivel. Já reparou nos olhos delle? Tem ás vezes uma expressão exquisita, que não vejo nos olhos de papae nem nos seus. Não gosto delle; não poderia gostar nunca.
Desta vez foi Jorge que lhe apertou a mão.