Yayá transpoz a soleira e saiu; precisava de ar, de espaço, de luz; a alma cobiçava um immenso banho de azul e ouro, e a tarde esperava-a trajada de suas purpuras mais bellas. Jorge acompanhou-a; a commoção delle era sincera e forte, mas menos intensa, menos desvairada que a de Yayá, cujos olhos pareciam dizer a tudo o que a rodeava, desde o sol poente até ao ultimo grelo de capim:—olhae, vede as bodas do meu coração; este é o meu amado. Perto da noite, Raymundo veiu buscal-a; Jorge acompanhou-a. Yayá lembrou-se de traçar com um grampo, no musgo que reveste o aqueducto, o nome de Jorge e a data; instando com elle, Jorge escreveu tambem o nome d'ella. Raymundo sorria entre dentes. Em caminho falaram do presente e do futuro; e, n'um intervallo, tocaram levemente no passado.

—Sabe que eu tinha um desgotosinho? disse Yayá. Jorge interrogou-a com os olhos. É verdade, um capricho, continuou ella. Quizera que o senhor nunca tivesse gostado de outra pessoa, e é bem possivel que não seja este o primeiro amor de seu coração.

—Não é, respondeu Jorge depois de um instante de reflexão. Amei uma vez, ha muito tempo; mas todo esse passado acabou.

—Está certo de que acabou?

—Creança! Que noiva receiou nunca de um amor antigo, começado e acabado, antes d'ella ser amada tambem? Que o novo amor seja sincero e fiel, eis o que se deve pedir e exigir. Quanto ao passado, é como os defuntos; reza-se por elle, quando se reza.

—Tenho medo de almas do outro mundo, tornou Yayá sorrindo.

Yayá mostrou-se tão expansiva n'aquella noite e nos seguintes dias, derramou de tal modo a vida que a enchia que Estella comprehendeu tudo o que se passava entre a enteada e Jorge. Ha uns amores, aliás verdadeiros, a que precedem muitas contrafacções; primeiro que a alma os sinta, tem despendido a virgindade em sensações intimas. Yayá ignorava tudo; não soletrara o amor, aprendera-o de um lance. Trazia o coração intacto. Seu accordar foi uma aurora subita, mas rutilante e limpida. No meio da embriaguez que lhe dava o novo sentimento, não cogitou nas possiveis consequencias d'elle; não perguntou a si propria se era verdade que no coração da madrasta havia uma saudade ou uma esperança silenciosa, e se isso podia ser a raiz de largos odios e dissenções domesticas. Não interrogou o futuro. Phenomeno curioso! A lembrança do pae foi por um instante esquecida; o egoismo do amor devorou-a.

[XV]

A fronte de Estella não tinha a tristeza dos vencidos. O amor persistia no coração, como um mau hospede; e o espectaculo daquelles ultimos mezes não fizera mais do que irrital-o. Mas a força moral de Estella subjugou-o. A luta fora longa, violenta e cruel; a consciencia do dever e o respeito de si propria acabaram vencendo. Talvez não fosse difficil perceber, por baixo da serenidade do rosto, o cançasso que deixam as grandes tempestades moraes. A tempestade ninguem lh'a viu.

Não obstante, no dia em que a paixão dos dous lhe pareceu evidente, Estella sentiu rugir-lhe no coração um vento de colera; vento forte e instantaneo. Dessa vez, o olhar penetrante de Yayá não pode ler no fundo da alma da madrasta; e por ventura lhe diminuiu a suspeita, quando a viu contemplar sem irritação nem abatimento a situação nascida de seu esforço unico.