Posto visse dissipada a tempestade que lhe negrejara sobre a cabeça, Yayá enxergava ainda para o lado poente um spectro, e para o lado do nascente uma possibilidade. Esses dous pontos negros vinham estragar a belleza azul do ceu e tornal-o pesado e melancholico. O mysterio do futuro unia-se ao mysterio do passado; um e outro podiam devorar o presente, e ella receiava ser esmagada entre ambos. A convivencia da familia atterrava-a. Que seria para ella o casamento, se tivesse de penetrar nelle com a perpetua ameaça deante dos olhos, uma antiga semente de amor, que a primara brisa da primavera podia fazer brotar e crescer de novo? Acreditava na isenção presente da madrasta, e na inteira cura do marido, mas o futuro? A belleza de Estella estava ainda longe do declinio, e a modestia de Yayá fazia-a persuadir de que, ainda no declinio, seria superior á sua.
Uma noite, entrou o Sr. Antunes e deu uma carta á filha, que a leu silenciosamente.
—Olha, disse ella apresentando a carta á enteada.
Yayá leu-a; eram duas paginas escriptas de alto abaixo, e por lettra desconhecida. Uma antiga condiscipula de Estella, residente no norte de S. Paulo, acceitava a proposta que esta lhe fizera, de ir dirigir-lhe o estabelecimento de educação que alli fundara desde alguns mezes.
—Bem vês que é necessario casar-te quanto antes, disse Estella logo que a enteada acabou a leitura.
Yayá sentiu os olhos humidos e atirou-se aos braços da madrasta. A effusão era sincera; havia alli affecto, reconhecimento e admiração. Mas, por isso mesmo que era sincera, deveria molestar a madrasta, se alguma cousa podesse já molestal-a. Estella sorriu,—um sorriso que queria dizer:—Bem sei que sou de mais. A lingua, porém, não proferiu uma palavra unica.
—Que quer dizer isso? perguntou o pae de Estella, que nada sabia da carta, e consequentemente nada entendia daquella expansão da moça.
Estella mostrou-lhe a carta. O pae não pode acabar de ler: a primeira pagina fizera-lhe comprehender tudo. Seus olhos iam do papel á filha e da filha ao papel, sem que a boca se atrevesse a formular nenhuma queixa ou censura.
—Não digo que me obedeças, murmurou elle; mas parece que podias consultar-me...
—Eu estava certa da sua approvação, respondeu Estella. Ou parece-lhe que fiz mal?