Jorge estava prestes a concluir os estudos em S. Paulo; ia na metade do quarto anno. Vindo á Capital durante as férias, achou-se deante de uma situação inesperada; a mãe esboçara um projecto de casamento para elle. A noiva escolhida era ainda parenta remota de Jorge. Chamava-se Eulalia. Tinha dezenove annos na certidão de baptismo e trinta no cerebro. Era uma moça sem illusões nem vaidades, talvez sem paixões, dotada de juizo recto e coração simples, e sobre tudo isso uma belleza sem macula e uma elegancia sem espavento.—Uma perola! dizia Valeria quando insinuou ao filho a conveniencia de casar com Eulalia. A perola, entretanto, não parecia anciosa de ornar a fronte de ninguem. Quando Valeria fez as primeiras sondagens no coração da joven parenta, achou alli uma agua tranquilla, sem curso nem recurso de marés. Tratou de saber se alguma brisa lhe roçara a aza, e descobriu que não; então chamou em seu auxilio o sirocco e o pampeiro. Não foi difficil a Eulalia perceber os desejos da viuva, nem resistiu quando chegou a entendel-a. A razão disse-lhe que o casamento era acceitavel; esperou. Valeria ficou satisfeita com o resultado, e deu-se pressa em sondar as disposições de Jorge, quando elle voltou no fim do anno.
Graças á sua arte de assediar as vontades alheias, Valeria alcançou do filho uma resposta condicional. Era já alguma cousa. O motivo da insistencia da viuva era complexo; eram as qualidades da parenta, a affeição grande que lhe votava, o receio de morrer subitamente e a confiança que tinha em si mesma para conhecer e eleger caracteres. Durante o ultimo anno da Faculdade, Jorge pensou algumas vezes no casamento como se pensa n'um projecto remoto; mas, á proporção que o tempo corria, o coração ia-se-lhe tornando retrahido e medroso. Uma vez formado, deu de mão á ideia; não teve a franqueza de o declarar á mãe, e Valeria esperou confiadamente que o coração do filho dissesse n'outra lingua aquillo que ella já lhe havia dito na sua.
Para conhecer exactamente o motivo da repulsa de Jorge em relação a uma moça, cujas qualidades deviam tentar qualquer outro, convem não esquecer que essas qualidades eram justamente as mais avêssas á indole do filho de Valeria. Não bastava ser elegante e bonita, discreta e mansa; era preciso alguma cousa mais, que exactamente correspondesse á imaginação delle; faltava-lhe um grão de romanesco.
A isto accrescia um sentimento novo, que se apossou delle, ao cabo de tres semanas depois da chegada ao Rio de Janeiro. A vista quotidiana de Estella produziu em Jorge uma impressão forte. Posto vivessem na mesma casa, era difficil acharem-se nunca a sós, porque a filha do escrevente passava todo o tempo ao pé da viuva; circumstancia que não teve a virtude de mudar o curso aos acontecimentos. Não podendo passar de palavras geraes e extranhas ao que lhe quizera confiar, Jorge falava-lhe com os olhos,—linguagem que a moça não entendia, ou fingia não entender. A imperturbavel seriedade de Estella foi um aguilhão mais, não menos cruel que a gentileza de suas formas, e certo ar de resolução que lhe transparecia do rosto quieto e pallido.
Pallida era, mas sem nenhum tom de melancolia ascetica. Tinha os olhos grandes escuros, com uma expressão de virilidade moral, que dava á belleza de Estella o principal caracteristico. Uma por uma, as feições da moça eram graciosas e delicadas, mas a impressão que deixava o todo estava longe da meiguice natural do sexo. Usualmente, trazia roupas pretas, côr que preferia a todas as outras. Nu de enfeites, o vestido punha-lhe em relevo o talhe esbelto, elevado e flexivel. Nem usava nunca trazel-o de outro modo, sem embargo de algum dixe ou renda com que a viuva a presenteava de quando em quando; rejeitava de si toda a sorte de ornatos; nem folhos, nem brincos, nem aneis. Ao primeiro aspecto dissera-se um Diogenes feminino, cuja capa, atravez das roturas, deixava entrever a vaidade da belleza que quer affirmar-se tal qual é, sem nenhum outro artificio. Mas, conhecido o caracter da moça, eram dous os motivos—um sentimento natural de simplicidade, e, mais ainda, a consideração de que os meios do pae não davam para custosos atavios, e assim não lhe convinha affeiçoar-se ao luxo.
—Porque não põe os brincos que mamãe lhe deu a semana passada? perguntou Jorge a Estella, um dia, em que havia gente de fóra a jantar.
—Os presentes mais queridos guardam-se, respondeu ella olhando para a viuva.
Valeria apertou-lhe a ponta do queixo entre o pollegar e o indicador:—Poeta! exclamou sorpudo. Você não precisa de brincos para ser bonita, mas vá pol-os, que lhe ficam bem.
Foi a primeira e ultima vez que Estella os poz. A intenção era patente de mais para não ser notada, e Jorge não esqueceu nem a resposta da moça nem o constrangimento com que obedeceu. Não podia suppôr-lhe ingratidão, porque via a affeição com que Estella tratava a mãe. Em relação a elle não parecia haver affeição egual, mas havia certamente respeito e consideração, rara vez familiaridade, e ainda assim, uma familiaridade enluvada, um ar de visita de pouco tempo.
Jorge começou a achar mais agradavel a casa do que a rua; e as noites, quando não havia pessoas de fora, passava-as á volta de uma mesa, lendo ou jogando com as duas, ou vendo-as trabalhar, em quanto contava anedoctas da academia, lia as correspondencias do Paraguay e de Buenos-Ayres, ou simplesmente alguma pagina de romance. Nessa vida, meio patriarchal, as horas corriam depressa, tão depressa, que elle não as sentia. Ao cabo de cinco a seis semanas, fez-se elle seu proprio confessor, examinou a consciencia, descobriu lá dentro alguma cousa que não era a phantasia sensual do primeiro instante, e, longe da absolver-se, condemnou-se á crua penitencia de abstenção. Voltou aos antigos habitos e deixou os serões domesticos. Mas a applicação do remedio, por mais sincera que fosse, já não podia muito contra a acção do mal. Estella frequentava-lhe tenazmente a memoria; e na rua, no theatro, nas assembléas a que ía, o perfil severo da moça vinha metter-se entre elle e a realidade. Se pudesse deixar de a ver, a convalescença não era ainda difficil; mas como fugir á lembrança de uma mulher, cuja figura lhe apparecia durante algumas horas de cada dia? Demais, a somnambula que elle tinha no cerebro vinha auxiliar a fatalidade das circumstancias. No fim de um mez, a indole do sentimento havia mudado: era mais pura; mas o sentimento não parecia disposto a esvair-se: era mais violento.