Pois o orgulho de Estella não lhe fez sómente calar o coração, infundiu-lhe a confiança moral necessaria para viver tranquilla no centro mesmo do perigo. Jorge não percebera nunca os sentimentos que inspirara; e, por outro lado, nunca viu a possibilidade de os inspirar um dia. Estella só lhe manifestava o frio respeito e a fria dignidade.
Um dia, vagando uma casa de Valeria no caminho da Tijuca, determinou-se a viuva a ir examinal-a, antes de a alugar outra vez. Foi acompanhada do filho e de Estella. Sairam cedo, e a viagem foi alegre para a moça, que pela primeira vez ia áquelle arrabalde. Quando a carruagem parou, suppunha Estella que mal tivera tempo de sair da rua dos Invalidos.
A casa precisava de alguns reparos; um mestre de obras, que já alli estava, acompanhou a familia de sala em sala e de alcova em alcova. Só elle e Valeria falavam; Estella não tinha voto consultivo, e Jorge parecia indifferente. Que lhe importava a elle o rebôco de uma parede ou o concerto de um soalho? Elle gracejava, ria ou sussurrava ao ouvido de Estella um epigramma a respeito do mestre de obras, cuja prosodia era execravel. Estella, que sorria com elle, cerrava entretanto o gesto aos epigrammas.
De sala em sala, chegaram a uma pequena varanda, onde uma circumstancia nova os deteve algum tempo. N'uma das extremidades da varanda havia um pombal velho, onde elles foram achar, esquecido ou abandonado, um casal de pombos. As duas aves, após vinte e quatro horas de solidão, pareciam saudar as pessoas que alli appareciam repentinamente.
—Coitadinhos! disse Estella logo que entrou na varanda.
Valeria prestou um minuto de attenção, talvez meio, e seguiu a ver a casa. Estella ficara a olhar para os dous pombos, e não a viu sair.
—Quer leval-os? disse a voz de Jorge.
A moça voltou-se e respondeu que não:—Comtudo, continuou ella, era bom dal-os a alguem para não morrerem á fome. São tão bonitos!
—Mas porque não os ha de levar a senhora mesma?
—Vou pedir ao mestre que os tire dalli, disse ella dando um passo para dentro.