—Posso ficar enterrado no Paraguay.

—Sua mãe não gostaria de ouvir isso...

Seguiram-se ainda dous minutos. Jorge poz toda a alma nestas palavras, ditas em voz baixa e triste:

—Embarco amanhã para o sul. Não é o patriotismo que me leva, é o amor que lhe tenho, amor grande e sincero, que ninguem poderá arrancar-me do coração. Se morrer, a senhora será o meu ultimo pensamento; se viver, não quero outra gloria que não seja a de me sentir amado. Uma e outra cousa dependem só da senhora. Diga-me; devo morrer ou viver?

Estella tinha erguido a cabeça; quando elle acabou achava-se de pé. Fitou-o alguns instantes com uma expressão muda e fria. A vaidade da mulher podia contentar-se daquella solemne reparação, e perdoar; mas o orgulho de Estella venceu, e não deu logar a nenhum outro sentimento de justiça ou de humanidade. Um geito ironico torceu-lhe o labio, donde saiu esta palavra má e desdenhosa:

—O senhor é um tonto.

Quando o pae voltou á sala, instantes depois, Jorge estava com uma das mãos no encosto de uma cadeira, pallido como um defunto. Estella fora até á porta da alcova da sala, resolvida a fechar-se por dentro.

O Sr. Antunes não tinha observação; mas, ao ver o rosto dos dous, não era muito difficil adivinhar que alguma cousa se passara entre elles. Adivinhou-o; comtudo, não atinara bem o que seria, se uma scena de dolorosa despedida, se outra cousa menos propicia a seus calculos. Foi ao joven capitão e pediu-lhe que se sentasse; mas Jorge declarou que ia sair e despediu-se. Sem encarar Estella, estendeu-lhe a mão, que ella apertou com o ar mais tranquillo do mundo. O pae espreitava uma lagrima furtiva, um gesto disfarçado, qualquer cousa que falasse em favor de suas esperanças. Nada; Estella não baixou o rosto nem escondeu os olhos. Jorge, sim; não obstante o esforço que fazia, tremia-lhe a mão ao apertar a do escrevente.

O Sr. Antunes acompanhou-o até a porta. Alli, antes de a abrir, quiz abraçar o moço official.

—Dê-me essa triste honra, disse elle; creia que estes braços são de amigo.