Luiz Garcia estendera a mão direita sobre a cabeça da filha e examinava-lhe a escoriação, que era pouco mais de nada. Tranquillisou-se e reprehendeu-a levemente, Estella, que interrompera a operação, concluiu-a dizendo que o caso era de pouca monta, mas podia ter sido mais grave. Luiz Garcia agradeceu-lhe o cuidado e o obsequio.

—Demais, a culpada fui eu, disse Estella, e sem desculpa, porque não sou creança. Vamos? continuou ella pegando na mão da menina.

—Então? perguntou a viuva a Luiz Garcia logo que este voltou a ter com ella.

—Não falemos nisso, ou faça-me um milagre, disse elle seccamente.

Não obstante a commoção que lhe ficou do procedimento affectuoso de Estella, em relação a Yayá, Luiz Garcia riu no dia seguinte, ao lembrar-lhe a proposta de casamento. Quando lá voltou, não ouviu falar mais em semelhante assumpto, nem Estella lhe deu a entender a menor pretenção. Pareceu-lhe que Valeria consultara apenas o seu desejo particular.

Tratando a moça de perto, Luiz Garcia havia já observado duas cousas: primeiro, o resguardo com que ella procedia, sem ostentar a intimidade de Valeria, nem cair nos ademanes daservilidade; depois um ar de tristeza, que era a sua feição habitual. Concluiu que Estella devia padecer ou ter padecido alguma vez. Apreciou, além disso, algumas de suas qualidades moraes. Suppôl-as verdadeiras, mas suppôl-as tambem caducas, como as graças do rosto ou como a flor do campo; com a differença, dizia elle,—que ha um prazo fatal para que as graças percam o primitivo frescor, e a flôr expire o seu ultimo cheiro,—ao passo que a natureza social tem a decrepitude precoce, e um principio de corrupção, que destroe em breve termo todas as florescencias do primeiro sol.

Estella não desistira da ideia e cogitava um meio de chegar á execução, não obstante a confiança da viuva, que lhe dizia:—Descança; a rede está lançada. Era justamente essa ideia de rede, que repugnava ao espirito directo e simples de Estella. Entretanto, cada dia que passava vinha confirmar a eleição da moça.

O resto foi obra de Yayá, obra dividida em duas partes, uma voluntaria, outra inconsciente. Voluntaria, porque tambem a menina, no silencio laborioso de seu cerebro, construira o projecto de os unir, e o dissera mais de uma vez a um e a outro. Inconsciente, porque o amor que a ligava a Estella, foi a mais poderosa força que modificou o pae. Era uma affeição intensa a dessas duas creaturas; ao passo que Yayá dava a Estella uma porção de ternura de filha, Estella achava no amor da menina uma antecipação dos prazeres da maternidade. Luiz Garcia testemunhou esse movimento reciproco e, por assim dizer, fatal. Se Yayá devesse ter madrasta, onde a acharia mais completa? Discreta, moderada, superior a seus annos, Estella tinha as condições necessarias para esse delicado papel. A primeira insinuação da viuva foi a causa primordial; mas o tempo, a convivencia, a affeição das duas, a necessidade de dar segunda mãe á menina, e antes legitima que mercenaria, finalmente, a certeza de que a Estella não repugnava a solução, taes foram os primeiros elementos da decisão de Luiz Garcia.

Faltava só o milagre, e o milagre veiu. Yayá adoeceu um dia em casa de Valeria, e a doença, posto que não grave nem longa, deu occasião a que Estella manifestasse de modo inequivoco toda a ternura de seu coração. Luiz Garcia foi testemunha da dedicação silenciosa e continua com que Estella tratou da doente. Esse ultimo espectaculo desarmou-o de todo. Entre elles, o casamento não era a mesma cousa que costuma ser para outros; nada tinha das alegrias ineffaveis ou das illusões juvenis. Era um acto simples e grave. E foi o que Estella lhe disse a elle, no dia em que trocaram reciprocamente as primeiras promessas.

—Creio que nenhuma paixão nos cega, e se nos casamos é por nos julgarmos friamente dignos um do outro.