Luiz Garcia jogava o xadrez. Era o recreio usual entre elle e Jorge; outras vezes saiam a passeio até curta distancia. Luiz Garcia acceitava de boa sombra essas distracções, que não eram turbulentas nem cançativas, mas brandas e pausadas, como elle. Demais nem sempre eram distracções sem fructo. Jorge apreciava agora melhor as conversações que não eram puros nadas, e os dous trocavam ideias e observações. Luiz Garcia era homem de escassa cultura, sobretudo irregular; mas tinha os dons naturaes e a longa solidão dera-lhe o habito de reflectir. Tambem elle ia á casa de Jorge, cujos livros lia de emprestimo. Era tarde; já não estava moço; faltava-lhe tempo e sobrava-lhe fome; atirou-se soffrego, sem grande methodo nem escrupulosa eleição; tinha vontade de colher a flor ao menos de cada cousa. E por que era leitor de boa casta, dos que casam a reflexão á impressão, quando acabava a leitura, recompunha o livro, incrustava-o por assim dizer, no cerebro; embora sem rigoroso methodo, essa leitura rectificou-lhe algumas ideias e lhe completou outras, que só tinha por intuição.
A necessidade intellectual de Luiz Garcia contribuiu assim para tornar mais intima a convivencia, unica excepção na vida reclusa que elle continuava a ter, ainda depois de casado. Jorge pela sua parte não desmentia até alli o bom conceito que o outro formava de suas qualidades; e a familia viu lentamente estabelecer-se a intimidade e a estima entre os dous homens. Uma noite, saindo Jorge da casa de Luiz Garcia, este e a mulher ficaram no jardim algum tempo. Luiz Garcia disse algumas palavras a respeito do filho de Valeria.
—Pode ser que eu me engane, concluiu o sceptico; mas persuado-me que é um bom rapaz.
Estella não respondeu nada; cravou os olhos n'uma nuvem negra, que manchava a brancura do luar. Mas Yayá que chegara alguns momentos antes, ergueu os hombros com um movimento nervoso.
Pode ser, disse ella; mas eu acho-o insupportavel.
[IX]
A nova ordem de cousas perturbou profundamente o animo de Estella. O procedimento de Jorge, por occasião da molestia do marido não lhe pareceu esconder nenhuma intenção particular; mas durante a convalescença, e sobretudo depois della, afigurou-se-lhe que a ideia do moço era insinuar-se na familia. Para que? Estella suppunha que o amor de Jorge, ao fim de tão longo periodo, estaria acabado de todo, como producto da primeira estação. Não lhe negou um pouco de gratidão, quando viu os obsequios que prestara ao marido enfermo, com tanta solicitude, discrição e dignidade. Agora, porém, ao ver a frequencia e a convivencia, suppoz alguma cousa mais do que a simples affeição tradiccional. Que encanto podia offerecer a casa de uma familia retirada e obscura a um homem creado em mais apparente plana social? Seu meio era outro; tendencias de espirito ou ambições de futuro o deviam levar a outra esphera. Esta consideração lhe pareceu decisiva. Concluiu que a paixão, vencida ou comprimida, soltava outra vez o brado da revolta; e se assim era, Jorge devia estar peor que em 1866, porque então os sentimentos rompiam com violencia e sinceridade, ao passo que agora o seu principal aspecto era a dissimulação. O amor, se amor havia, trazia já os olhos abertos e dispunha da razão; de estouvado, tornava-se cautelloso e subtil.
—Que ideia faz elle de mim? perguntou Estella a si mesma.
Quando esta palavra lhe soou no espirito, Estella sentiu-se diminuida e humilhada aos olhos de Jorge. Cumpria pôr termo a uma vida de reticencias e dubiedade. Estella cogitou no meio de fazer cessar a intimidade dos dous homens; quando menos, a frequencia de Jorge naquella casa. Pensou em pedil-o directamente a Jorge; mas rejeitou desde logo a ideia, aliás incompativel com sua indole; depois, pensou em dizer tudo ao marido.
Uma noite, na primeira semana de Novembro, Estella assentou definitivamente revelar ao marido a unica pagina de seu passado. Estava sósinha, no jardim, e vira desmaiar o crepusculo da tarde—uma tarde cinzenta e amortecida. De quando em quando o espirito volvia ao passado, e toda ella estremecia com uma sensação extranha, mysteriosa e insupportavel. A noite caiu de todo, e a alma de Estella mergulharia tambem na vaga e perfida escuridão do futuro, se a rude voz do escravo não a viesse acordar.