—Deixa ver.
Estella deu-lhe a carta.
—É do Dr. Jorge, disse o marido.
Abriu-a, e depois de ler algumas linhas, sorriu. Leu-a depois até o fim. Quando acabou, dobrou-a e ficou a olhar para a mulher; tornou a desdobral-a machinalmente.
—Vou restituil-a, disse elle depois de curta pausa; talvez se envergonhe de haver escripto estas cousas...
E dirigiu os olhos á carta, com uma insistencia de aguçar o mais embotado appetite. Depois, volveu a cabeça um pouco para traz, onde ficava a filha, a distancia, de olhos baixos; abafou a voz e disse a Estella:
—Nunca soubeste do verdadeiro motivo que o levou á guerra?
Estella ficou ainda mais pallida do que era; o sangue todo refluiu-lhe ao coração, donde lhe não saiu uma só palavra; foi com um gesto negativo que ella respondeu. E se não podia empallidecer mais, podia corar e corou de vergonha. Luiz Garcia não viu nem a primeira, nem a segunda impressão de suas palavras. Enrolava e desenrolava com os dedos um dos cantos da carta. Naturalmente relembrava os successos daquelles cinco annos, as confidencias da mãe e do filho.
—Quem diria que depois de tamanho sacrificio.... O que são rapazes! O que são paixões! Elle gostava de uma moça; não sei quem era, mas supponho.... A mãe fez quando pode para domal-o; quando desesperou, lembrou-se de o mandar para o sul; elle acceitou. Fui confidente de um e de outro. Tempos depois de embarcar.... espera.... a data hade estar aqui.... 67.... Ainda em 67 durava a tal paixão; afinal pareceu que só esperava o fim da guerra para acabar tambem. Morreu-lhe a paixão e elle engorda. Nunca suspeitaste nada?
—Não, murmurou Estella.