—Quem te fala em casar com elle?
—Por ora é um gracejo; mas, se elle teimar, é possivel que nem a senhora nem papae o desemparem, e ainda mais possivel que eu me deixe vencer para contentar a todos. Mas é este o ponto de minha confidencia; é uma ideia que me persegue ha dias. Devo eu casar com um homem amando a outro? posso fazel-o? devo fazel-o?
Estella estremeceu levemente, sob o olhar impassivel e puro da enteada, e não respondeu logo. Yayá parecia folgar com esse enleio de um minuto; mas ao mesmo tempo o coração lhe sangrava, porque o enleio era a confirmação de suas recentes supposições. A madrasta não tinha a penetração da enteada; além disso, como suppôr nella o conhecimento de um facto remoto e não divulgado? Estella nem cogitou nisso. Escoou-se o minuto, e ella respondeu com tranquillidade:
—Não deves casar, se o amor pode ser satisfeito sem obstaculo. No caso contrario, o casamento é uma simples escolha da razão: sacrifica-te.
Yayá, que tinha uma das mãos da madrasta entre as suas, largou-a subitamente. Estella riu, e bateu-lhe na testa com a ponta do dedo.
—Esta cabecinha! disse ella. Ha aqui dentro muita cousa que é preciso capinar...
No primeiro instante, Yayá empallideceu. Ao ultimo gesto de Estella, respondeu com um sorriso forçado e sem cor. Logo que esta saiu, deixou-se cair na cadeira e fechou o rosto nas mãos. Quando dalli saiu, meia hora depois, não trazia nenhum signal de lagrimas, ou sequer de tristeza. Não vinha alegre, de certo; serena, sim, daquella serenidade com que o caçador do sertão se dispõe a encarar a onça.
Jorge foi jantar, e sobre a tarde appareceu Procopio Dias. Durante o jantar e a noite, Yayá fez impressão na familia e nos extranhos, pela singular alteração de seus modos. Estava um pouco pallida, mas a viva luz dos olhos parecia communicar ao rosto uma porção do colorido ausente. Mostrou-se expansiva, e não golhofeira. Suas phrases eram longas, deduzidas, iam até o fim do pensamento, sem as interrupções e saltos do costume. De costume, parecia que a moça pensava aos fragmentos, porque era quasi impossivel ter com ella uma conversa inteiriça e ordenada com a sua variedade propria. Naquelle dia era o contrario. Como que a alma despira a roupa de bailarina, para enfiar um roupão caseiro, simples, apertado, subido até o pescoço. Era melhor assim? era peor? Nem uma nem outra cousa; era uma apparencia nova.
Mais do que ninguem, Jorge estimou essa alteração, porque em relação a elle a moça tambem havia mudado alguma cousa. Yayá sentira nesse dia mais repugnancia do que nunca ao ver o filho de Valeria, e chegou a recuar instinctivamente a mão. Cedeu, porém, e o sorriso com que corrigiu a recusa foi o primeiro que Jorge recebeu directamente della. Nesse dia a moça respondeu-lhe sem custo, e talvez lhe dirigiu a palavra alguma vez; o que tudo viu Luiz Garcia e attribuiu a effeito de suas admoestações.
Nem Luiz Garcia nem Jorge poderiam suppôr que sobre a cabeça da madrasta e da enteada a carta de 1867 agitava as suas lettras de fogo. Essa carta importuna, poupada da destruição immediata, era a scentelha subitamente lançada no amor adormecido de uma e no odio nascente de outra; Jorge estava longe de o ler no rosto affavel de Yayá, e no olhar fugidio de Estella.