Luiz Garcia não respondeu logo; não tinha animo de acceitar a incumbencia e não queria abertamente recusar; procurava um meio de esquivar-se á resposta. Valeria insistiu por modo que era impossivel calar mais tempo.

—O que me pede é muito grave, disse elle; se o Dr. Jorge der algum peso a meus conselhos e seguir para a guerra, assumo uma porção de responsabilidade, que não só me ha-de gravar a consciencia, como influirá para alterar nossas relações e diminuir talvez a amizade benevola que sempre achei nesta casa. O obsequio que hoje exige de mim, quem sabe se m'o não lançará em rosto um dia como acto de leviandade?

—Nunca.

—Nesse dia, observou Luiz Garcia sorrindo levemente, ha-de ser tão sincera como hoje.

—Oh! o senhor está com ideias negras! Eu não creio na morte; creio só na vida e na gloria. A guerra começou ha pouco e ha já tanto heroe! Meu filho será um delles.

—Não creio em presentimentos.

—Recusa?

—Não me atrevo a acceitar.

Valeria ficou abatida com a resposta. Após alguns minutos de silencio, ergueu-se e foi buscar o lenço que deixara sobre um movel, ao entrar na sala. Enxugou o rosto, e ficou a olhar para o chão, com um dos braços cahidos, em attitude meditativa. Luiz Garcia começou a reflectir no modo de a dissuadir efficazmente. Seu scepticismo não o fazia duro aos males alheios, e Valeria parecia padecer naquelle instante, qualquer que fosse a sinceridade de suas declarações. Elle quizera achar um meio de conciliar os desejos da viuva com a sua propria neutralidade,—o que era puramente difficil.

—Seu filho não é creança, disse elle; está com vinte e quatro annos; pode decidir por si, e naturalmente não me dirá outra cousa... Demais, é duvidoso que se deixe levar por minhas suggestões, depois de resistir aos desejos de sua mãe.