—E isto?

—Um A.

E depois de compreender que o sorriso d’elle nada tinha humilhante nem ironico:

—Pensa, na verdade, eu instruir-me, André?

—E porque não? Tentemos. Já que uma vez aprendeu, ser-lhe-á agora facil. Se o conseguirmos, tanto melhor; se não, paciencia.

E a lição continuou.

Dedicando-se com toda a boa vontade; mexendo os sobrolhos, procurava recordar-se das letras esquecidas; tanto se mergulhára no estudo, que não se lembrava de nada mais; os seus olhos fatigaram-se dentro em pouco, e n’elles se accumularam as lagrimas que o cansaço provocava.

—Aprendo a ler! exclamou, soluçando... na hora em que só devia pensar na morte.

—Não chore! Ha milhares de creaturas que podiam instruir-se ainda mais, e todavia vegetam como brutos, embora se gabem de que vivem bem... E o que ha na sua existencia que seja bom? Sempre a mesma vida: trabalhar e comer. De vez em quando, fazem filhos: a principio acham-lhes graça, mas quando elles começam tambem a comer, entram de embirrar com elles, e dizem-lhes: «Vejam lá se crescem depressa, seus comilões, e se começam a trabalhar!» Nunca a sua alma é animada por uma alegria, por um pensamento que dê jubilo ao coração. Uns mendigam sempre, como os pobres, os outros fazem-se ladrões. Inventaram-se leis infames, entregaram a guarda do povo a umas creaturas a quem disseram: «Obriguem a que respeitem as nossas leis, que nos permittem sugar o sangue humano.» Se o homem não cede quando o comprimem, mettem-lhe á força, nos miolos, preceitos que brigam com a razão.

Encostado á meza, fitava o olhar em Pélagué, continuando: