—Olha: queria perguntar-te o que andas sempre a lêr... declarou com simpleza.
Elle pôz o livro nos joelhos.
—Assenta-te, mamã.
Pélagué sentou-se pesadamente ao seu lado, apurou o ouvido, na espectativa de alguma coisa grave.
Sem olhar para ella, a meia voz, muito rudemente, Pavel falou.
—Leio livros prohibidos. Prohibem a sua leitura porque dizem a verdade da nossa vida, da vida do povo. São impressos ás escondidas, e se os encontrassem em minha casa, eu seria prezo... prezo por ter querido saber a verdade. Percebeste?
Ella sentiu de subito a respiração oppressa, e fixou o olhar esgazeado no filho, que lhe pareceu outro, um estranho. Tinha outra voz, mais grossa, mais cava, mais sonora. Com os dedos adelgaçados torcia as sedosas guias do bigode e para ella descia o olhar enigmatico. Pélagué teve medo, por elle.
—Para que é isso, Pavel?
Elle ergueu a cabeça, observou-a e respondeu tranquillamente:
—Quero saber a verdade.