Á esquina d’uma pequena praça, á entrada de uma rua estreita, umas cem pessoas cercavam Vessoftchikof, que discursava.

—Espremem-nos para nos tirarem o sangue, como espremeriam um limão para lhe tirarem o succo.

—É verdade! responderam algumas vozes que se confundiram depois no confuso ruido.

—Faz o que pode, o pobre rapaz! disse André. Vou ajudal-o.

Approximou-se do grupo, abaixou-se, penetrou n’elle como um sacca-rôlhas e começou:

—Companheiros! Dizem que ha na terra toda a especie de povos: judeus e allemães, francezes, inglezes, tartaros. Mas não creio que assim seja. Ha só duas raças, dois povos irreconciliaveis: os ricos e os pobres. Os vestuarios são differentes, as linguas tambem; mas quando se vê como os senhores tratam o povo, compreende-se que elles são verdadeiros carrascos para os miseraveis, uma especie de espinha atravessada na garganta.

Rebentou uma gargalhada.

O ajuntamento augmentou; os ouvintes estendiam o pescoço, punham-se nos bicos dos pés.

—No estrangeiro, os operarios já compreenderam esta simples verdade. E hoje todos confraternisam n’este luminoso dia primeiro de maio. Deixam o trabalho, e saem para a rua, para se verem, para medirem a sua grande força. Hoje formam um coração unico, porque todos os corações têem a consciencia da força do povo operario, porque a amisade os une, estando cada qual disposto a sacrificar a vida luctando pela felicidade de todos, pela liberdade, pela justiça a todos!

—A policia! gritou alguem.