—Já me disseste isso! gritou Jéfim com desabrimento.
—Escutem, companheiros! proseguiu Rybine; e ergueu o braço n’um gesto lento. Olhem para esta mulher!—e apontava para Pélagué.—O filho está perdido; provavelmente...
—Porque dizes isso? perguntou a mãe, angustiada.
—Porque assim é preciso! Pois haviam os teus cabellos de embranquecer em vão e o teu coração de soffrer inutilmente?... Tu ainda não morreste, não é verdade?... Trouxeste livros?
A mãe lançou-lhe furtivo olhar e confirmou apóz um silencio:
—Trago.
—Ora ainda bem! disse Rybine, dando uma palmada na mesa. Percebi-o logo mal te vi. E para que terias tu vindo, a não ser para isso? Vejam lá vocês, o filho desappareceu-nos das fileiras, e ahi temos a mãe no logar d’elle!
Ergueu-se e poz-se a gritar com voz cava e gestos ameaçadores:
—Essa canalha não sabe o que anda a semear por ahi, ás cegas! Hão de ver, quando nós estivermos mais fortes, quando entrarmos a ceifar n’essas hervas malditas! Hão de ver!
A estas palavras, toda se assustou Pélagué; olhou para Rybine, achou-o muito mudado, muito magro; já não tinha a barba cuidada como d’antes, mas emaranhada; distinguiam-se-lhe perfeitamente as saliencias dos malares. No branco azulado dos olhos corriam-lhe laivos sanguineos, como de quem anda mal dormido. O nariz afilára-se-lhe, mais carlaginoso e adunco, qual bico de ave de rapina. Pelo cós da camisa, desabotoado, d’antes sempre sujo de tintas e alcatrão, viam-se-lhe as claviculas mirradas e o denso velo do peito. Toda a pessoa d’este homem respirava alguma coisa mais soturna e melancólica do que o fôra até então. O brilho dos exaltados olhos illuminava-lhe o rosto sombreado por uma expressão de soffrimento e de rancor, que relampejava em purpureos clarões.