Tornára-se agradavel a musica a Pélagué, quasi indispensavel mesmo. Sentia-a correr-lhe no peito, penetrar-lhe no coração, fazendo brotar catadupas de pensamentos rápidos e intensivos, e desabrochar expressões suaves e bellas, suggeridas pela força das melodias.

Difficilmente se resignava, porém, ao desleixo de Sofia, que atirava para todos os cantos os objectos que lhe pertenciam, e as pontas e a cinza dos cigarros; mais lhe custava a habituar-se á sua maneira de falar tão decidida. Era por demais flagrante o contraste com a pesada tranquilidade de Nicolao, com a gravidade benevola e constante das suas palavas. Ao entendimento de Pélagué, Sofia não passava d’uma rapariguita com vontade de passar por pessôa de juizo e que olhava ainda para as pessôas como para brinquedos engraçados. Falava muito da santidade do trabalho e augmentava nesciamente a tarefa da pobre mulher com o seu desmazelo; discorria sobre a liberdade e, comtudo, era visivel incommodo que a todos proporcionava com a sua irritavel impaciencia, com as suas incessantes discussões e o seu proposito de se collocar acima dos outros. Muitas contradicções se davam n’ella; Pélagué tratava-a com prudencia constante, mas sem o sentimento caloroso que nutria por Nicolao.

Sempre meticuloso, este levava dia por dia a mesma vida monotona e regrada; almoçava ás oito horas, lia o seu jornal em voz alta, commentando as noticias mais importantes. Pélagué descobria n’elle affinidades de caracter com André. Como acontecia com o russo-menor, o seu hospedeiro nunca falava dos homens com rancor; considerava-os a todos culpados da má organisação da existencia. Mas a fé n’uma vida nova não era n’elle tão fervorosa como em André, nem mesmo tão idealmente luminosa. Tinha um modo de falar pausado, uma voz de juiz integerrimo e rigoroso; até quando fazia qualquer narrativa de horrores, esboçava sempre um sorriso compassivo; mas nos olhos tinha um clarão sinistro. Quando reparava n’aquelle olhar, Pélagué compreendia que não era homem para perdoar; e, sentindo quão mortificadora se lhe devia tornar tal severidade, tinha pena d’elle. E affeiçoava-se-lhe cada vez mais.

Ás nove horas, ia elle para a repartição; a velha arranjava os quartos, preparava o jantar, lavava-se, mudava de vestuario; depois, sentava-se no quarto e punha-se a vêr as estampas dos livros. Applicando toda a sua attenção, ainda podia ler um bocado; mas, ao cabo d’algumas páginas, ficava cansada e perdia o sentido ao que lia. Em compensação, as gravuras distraíam-na muito, qual a uma criança: desenrolavam-lhe diante da vista um mundo novo, maravilhoso, compreensivel, no emtanto, e quasi tangivel. Via cidades immensas com magnificos edificios, máquinas, navios, monumentos, riquezas incalculaveis amontoadas pelos homens, a par das criações da natureza, n’uma diversidade que a confundia.

Alargava-se a vida até o infinito, patenteando-lhe em cada dia coisas colossaes, desconhecidas, portentosas; e pela abundancia das suas riquezas, o variegado das suas bellezas, exaltava mais e mais aquella alma sedenta que despertava. Gostava ella principalmente de folhear um livro de zoologia; e bem que tal obra estivesse escripta em lingua estrangeira, eram as suas illustrações as que mais nítida representação lhe davam da riqueza, da belleza e da immensidade da terra.

—Como a terra é grande! disse um dia a Nicolao.

—É; e apesar d’isso a humanidade vive apertada...

O que sobretudo a enternecia eram os insectos, particularmente as borboletas; percorria, surpreza, os desenhos que as representavam e dizia:

—Que belleza! não é verdade, Nicolao? Quantas d’estas perfeições existem por toda a parte! Mas vivem occultas aos nossos olhos, passam ao nosso alcance sem repararmos n’ellas. Cada qual corre á sua vida, nada sabe, nada admira, porque não ha tempo nem vontade para isso. Quanto prazer poderiamos disfructar, se todos soubessem como a terra é rica e que de coisas admiraveis ella encerra! E é tudo para todos e cada um para tudo... não é assim?

—Sim, com effeito... respondia Nicolao, sorrindo. E trazia-lhe mais livros.