Calou-se o cocheiro, abanou a cabeça com ares de desconsolo e proseguiu n’um tom de voz estranho:
—Assim se vão incommodar os mortos... accordar os cadaveres que dormem!
O trem ia aos salavancos pela calçada, chiando muito; a cabeça de Ivan rolava suavemente no peito da sua enfermeira. O cocheiro, virado para elles, continuou, pensativo:
—Anda a agitação entre o povo... As desordens parece que se levantam debaixo dos pés... É verdade! Esta noite veio a polícia a casa d’uns visinhos. Fizeram lá não sei o quê até pela manhã e depois, quando se foram, levaram preso um que é ferreiro. Dizem que uma noite d’estas vão leval-o ali á beira no rio e afogam-no em segredo. E todavia, era um homem intelligente, aquelle ferreiro.
—Como se chama elle? perguntou a velha.
—O ferreiro? Chama-se Savyl, mas tem um outro nome: Evetchenko. É muito mocinho ainda, mas já compreendia muitíssimas coisas, e é proíbido compreendel-as, ao que parece...
Ás vezes, apparecia lá pelas estações de carroagens e dizia-nos: «Que vida que vocês levam cocheiros!»
—É verdade, respondiamos-lhe nós, o nosso officio é peor que o dos cães!»
—Pára ahi! ordenou Pélagué.
O sobresalto produzido fez então que Ivan voltasse a si. Entrou a gemer devagarinho.