—O tio Rybine não é homem para perder a cabeça... E olhe que o provou!... Disse-me logo: Ignaty, corre á cidade! Lembras-te das duas mulheres que aqui estiveram? E escreveu qualquer coisa n’um papel, muito depressa... Toma, vae, adeus, meu irmão! disse-me elle. E deu-me um empurrão nas costas. Eu atirei-me para fóra da cabana, escondi-me entre umas moitas, puz-me a andar de gatas e ouvi chegar os guardas! Eram muitos, appareciam por todos os lados! Cercaram a fabrica. Eu estava por detraz d’uma sebe... passaram-me mesmo na frente. Depois, levantei-me e entrei a andar, a andar... Andei um dia e duas noites, sem parar. Estou estafado para uma semana; nem sinto as pernas!

Mostrava-se satisfeito de si mesmo; illuminava-lhe um sorriso os grandes olhos escuros; tinha um tremor nos beiços grossos e vermelhos.

—Vou-te fazer uma gôta de chá n’um pronto! disse Pélagué sollicita, agarrando no samovar. Mas emquanto esperas, vae-te lavando. Ficas melhor depois!

—O que eu queria era dar-lhe o bilhete.

Levantou com difficuldade uma das pernas, dobrou-a, collocou o pé sobre o banco, isto com innumeras caretas e gemidos, e começou a desenrolar uma das ligaduras, que lhe envolviam ambos os pés.

Nicolao appareceu á porta. Ignaty, confuso, tornou a pôr o pé no chão; tentou levantar-se, mas cambaleou e caíu desamparadamente em cima do banco, ao qual se agarrou ás mãos ambas.

—Ai, que cançado que eu estou!

—Bom dia, camarada! disse-lhe Nicolao em tom amigavel e com um signal de cabeça. Espere, que eu o ajudo.

Ajoelhou-se diante do operario e desenrolou rapidamente a ligadura, emporcalhada e húmida.

—É necessario esfregar-lhe os pés com alcool. Ha de fazer-lhe bem, disse Pélagué.