—Cala-te d’ahi, Nathalia! interrompeu Sizof com o semblante carregado.
Pélagué ergueu a vista para aquella mulher: era a mãe de Samoílof. Um pouco mais adiante, estava o pae, calvo, de bello rosto ornado de espessa barba ruiva talhada em leque. Semi-cerrava as palpebras e olhava direito para diante de si, com um estremecimento involuntario de vez em quando.
Pelas altas janellas entrava uma claridade uniforme e turva; escorregavam flocos de neve pelas vidraças. Entre as janellas, havia um immenso retrato do czar em grossa moldura doirada, e com reflexos oleosos na pintura; e a um e outro lado do quadro, occultavam a parede as pregas hirtas dos pesadissimos reposteiros que revestiam as janellas. Frente ao retrato, uma meza coberta de panno verde, occupava quasi toda a largura da sala; á direita, por detraz d’uma especie de gelosia gradeada, dois bancos de pau; á esquerda, duas filas de poltronas forradas de vermelho. Os officiaes de diligencias, de golas verdes e botões doirados iam e vinham pela sala, nos bicos dos pés.
Na atmosfera, de equivoca pureza, perpassavam ruidos de vozes, cochichando baixinho; pairava, vindo ninguem saberia d’onde, um vago cheiro de farmácia. Todas aquellas côres vivas e aquellas scintillações offuscavam a vista; penetravam no peito os odôres do ambiente d’envolta com a respiração; o espirito sentia-se submerso n’uma especie de temor inexprimivel.
De súbito, alguem começou a falar em voz alta. Toda a assistencia se pôz de pé. Pélagué teve um sobresalto e ergueu-se tambem, agarrada ao braço de Sizof.
No canto esquerdo da sala, tinha-se aberto uma porta alta, dando passagem a um velhinho de oculos, muito alcachinado e de andar incerto. Umas escassas suissas tremiam-lhe dos lados da carinha de côr terrosa, o lábio superior, barbeado, quasi se lhe sumia na cavidade da bôca. As maçãs do rosto e o queixo comprimiam-se-lhe sobre a altissima gola da farda, dando a julgar que por baixo nada existia de pescoço. O velho caminhava sustido por um rapaz alto, de cara de porcelana, muito redonda e rosada. Atraz d’elles, vinham trez personagens revestidos de uniformes recamados de bordados e mais trez sujeitos á paisana.
Por muito tempo, estiveram a deliberar entre si, em volta da mesa; depois, sentaram-se. Logo que todos tomaram os seus logares, um d’elles, rosto imberbe e com a farda desabotoada, entrou a falar ao velho, com uns modos de indifferente indolencia e movendo com custo os beiços entumecidos. O velho ia-o escutando. Conservava-se hirto e immovel, e Pélagué distinguia-lhe duas manchasinhas esbranquiçadas por detraz dos vidros dos oculos.
Junto de estreita secretária, na extremidade da mesa, um homem alto e calvo folheava papeis, com uma tossinha sêcca.
O velho fez um movimento para diante e começou a falar. A primeira palavra pronunciou-a elle distinctamente, mas as outras parecia que se sumiam ao sahir-lhe dos lábios delgados e sem côr.
—Declaro...