—Cuidado, que vae acontecer alguma! aconselhou outra voz.
Pélagué via que cada qual tratava de se apoderar dos papeis e de escondel-os nas algibeiras ou no peito. Mais animosa, entrou a tomar maços e maços de dentro da mala e a atiral-os á direita e á esquerda, nas mãos ávidas e ligeiras que se lhe estendiam.
—Sabem porque condemnaram o meu filho e os que com elle estavam? Vou dizer-vol-o! Creiam n’este coração de mãe! Condemnaram-nos porque vos traziam a todos a santa verdade! E hontem mesmo eu vi como essa verdade triunfou!... Ninguem póde luctar contra ella, ninguem!
A multidão, que se conservava muda de assombro, engrossava cada vez mais, cercando Pélagué d’uma cadeia de seres viventes.
—A pobreza, a fome, a doença—eis o que o trabalho nos rende! Tudo é contra nós. De dia para dia, morremos sob o trabalho, soffremos fome e frio, prostrados sempre no lôdo e no ludíbrio; e são outros que se fartam e se divertem á custa do nosso labor!... Como cães presos pela trela, immobilisam-nos na ignorancia; nós nada sabemos e, na nossa covardia, de tudo temos medo! A nossa vida é uma noite, uma noite escura! É um pezadello horrendo!... Pois não é verdade?
—Sim! responderam algumas vozes surdas.
—Fecha-lhe a bôca!
Por detraz do ajuntamento, Pélagué avistou o espião acompanhado por dois guardas. Deu-se pressa em distribuir os últimos maços, mas quando a sua mão chegava mais uma vez á mala, sentiu o contacto de outra mão.
—Levem tudo! Levem tudo! disse ella, curvando-se. Para transformar esta vida, para libertar todos os homens, para os resuscitar d’entre os mortos, como eu resuscitei, nasceram creaturas filhas de Deus que andam a semear pelo mundo a verdade santa. Operam em segredo, pois, como bem sabem, ninguem póde dizer a verdade, sem que seja logo perseguido, suffocado, atirado para uma enxovia, mutilado! A verdade da existencia e a liberdade são inimigas para todo o sempre irreconciliaveis d’aquelles que nos governam, d’aquelles que nos opprimem. E são crianças, são creaturas purissimas e luminosas que vos annunciam a verdade. Graças a ellas, ella ha de chegar emfim ás nossas miseraveis existencias, ella ha de vir acalentar-nos e confortar-nos; ha de libertar-nos da oppressão das autoridades e de todos os que lhes venderam a alma! Creiam!
—Bravo, velha! gritou um.